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Como desbloquear num agueiro

Muito antes de viver o mar tatuei em mim a palavra flutua. Conservar à superfície, boiar, vogar sobre as ondas. Um estado de alma de serenidade, de simplesmente deixar-me levar pela corrente sem nada temer. Mas em dias de surf como o de hoje, a palavra flutua tem mais significado do que alguma vez considerei ter…

A praia de São João da Caparica é a minha praia na costa; aquela a que mais vou, inverno ou verão. Habituei-me aos picos, ao areal de extensão determinada entre pontões, encontro com os amigos de sempre debaixo dos chapéus de sol e pranchas de surf em espeto na areia. É também o mar que mais sustos ja me causou. Ali parti a cabeça e fui vencida pelo cansaço de lutar contra os agueiros.

Hoje não foi diferente.

O mar vestiu-se de azul escuro. De manhã bem cedo, ainda de pés na areia, o professor questionou: – o que estão a ver? Um agueiro, respondemos. – E onde vamos surfar?, retorquiu. No pico em frente ao banco de areia.

A maré ia encher ao longo da manhã, e a corrente do agueiro ia ajuda o carrossel: entrar pelo canal, apanhar a onda, sair e voltar a entrar pelo canal. Mas já se sabe, nada no surf é matemático. A primeira onda foi feliz. Senti ligeiramente a corrente que nos ia tirando do pico, mas fixada num ponto da terra, sabia onde me manter. Assim veio, sorridente, direita a mim. Livremente flutuei em cima da onda. Por estar de novo na areia, aguardei que o set passasse. Tentei chegar lá fora, mas ingenuamente deixei-me cansar. Remava sem sair do lugar em pleno agueiro. Agarrei-me à prancha e sentindo a areia debaixo dos meus pés, ergui-me e ali me mantive, com água pela cintura, a acalmar a respiração. Fôlego recuperado, recordando a teoria do carrossel, entrei novamente pelo canal.

Nessa altura, entre a primeira onda surfada e a minha insistência em regressar ao mar, tudo tinha mudado. Maré mais cheia. Corrente mais forte. Coloquei-me na prancha, leve e veloz, cheguei ao outside sem grande esforço. Mas é preciso mais astúcia e respeito pelo mar. O agueiro também se intensificou nestes instantes e só depois percebi que não vou sair dali com a mesma agilidade. Bloqueei. E com isso, a respiração torna-se pesada, desesperada, inexistente. Eu estava em pânico e congelei o pensamento, a capacidade de reação. Deixei o medo apoderar-se de mim.

“Senta-te na prancha e não entres em pânico!”, veio de lá a ordem. Eu estava em segurança, embora o cenário soasse a demasiado negro. As ondas não eram grandes, não me punham em aflição. Estava a flutuar sentada na prancha, um tanto ou quanto à deriva, mas sem perigo de me afogar naquele momento. Tinha a prancha, todos estavam calmos ao meu redor, dali haveria de sair. Bastava aguardar pela onda. E não bloquear. Assim foi. Sai do mar na onda que apanhei.

Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Sentei-me na areia a observar o mar. Vi-lhe todas as formas e maus feitios. Sobe e desce inconstante, caminho de cabras em forma líquida, intrigantemente atraente. Levantei-me, peguei na prancha e voltei a entrar. Em cheio no agueiro. Desta vez saio daqui sozinha. E saí.

 

O que aprendi com o mar de hoje?

  • O mar tem uma densidade e profundidade infinitamente misteriosa para o nosso conhecimento. É preciso aprender ler o mar, o melhor que pudermos, sem promessas de sempre saber como vamos sair.
  • Flutuar é a melhor estado para a mente. Se ficar em pânico, não há capacidade de análise e de resposta. E neste sentido, flutuar é a minha palavra para mente calma.
  • Se a nossa velocidade para chegar ao outside for demasiado veloz, algo não está certo. De novo, certificar de que lemos bem o mar antes de entrar.
  • Ainda preciso de mais preparação física para o mar. É sempre tão exigente…
  • Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Como desligar a mente durante as férias

Férias. Finalmente chega a hora de quebrar a rotina e relaxar. Mas será que conseguimos desligar? Infelizmente não funcionamos por botão. Há sempre algo que nos perturba o inconsciente e não nos deixa aproveitar este merecido sossego na sua plenitude.

Ir de férias, por mais breves que sejam, é um compromisso de honra com a nossa alma. É dizer às rotinas que as vamos deixar por uns dias, ao clientes que não estamos disponíveis, às redes sociais que estamos offline, à família que precisamos de um tempo. E quando arrancamos de férias, será que nos desligamos de tudo isto? Não. Mas podemos tentar. Eis a minha lista.

Meditar a qualquer hora do dia, em qualquer lugar. Eu medito nas aulas de Hatha Yoga, e sempre que posso, na praia. O som do mar tranquiliza-me e ajuda-me a desligar. Por isso, nestas férias temos de aproveitar bem os momentos para esquecer o mundo e dar inicio a esta viagem interior.

Caminhar na natureza. Seja a beira-mar, no campo ou no meio das árvores, todas as caminhadas em comunhão com a natureza e de preferência sem wi-fi, é a cura para qualquer mente acelerada.

Visitar lugares inóspitos ou remotos. Um sítio que nos faça sair da zona de conforto e encontrar respostas às questões inquietantes (que até agora não nos deixaram desligar) ou que nos faça simplesmente não pensar em nada que tenhamos na bagagem, apenas admirar o que temos aos nossos pés.

Experimentar algo novo. Como a nossa cabeça não foi concebida para estar completamente desligada, a novidade liberta-nos das tensões que trazemos. Encontrar um bom desafio – como um aula de surf ou yoga – são as hipóteses a ter em conta (palavra de yogini).

Respirar. Ou melhor, aprender a respirar. Se estamos com a mente inquieta, respiramos de forma mais acelerada. Portanto, nas férias devemos ter tempo para aprender a respirar de forma tranquila e ritmada para que nos conduza à paz interior, ao controlo dos impulsos, e consequentemente, à libertação da mente.

Dito isto, vou estar offline a partir deste fim de semana. Vou praticar yoga, meditar e aproveitar o tempo em família, na praia a surfar. Sejam felizes. Prometo regressar dia 15 com mais energia e novidades no Mar de Sal.

Como o mar atua a nossa mente

Há memórias tão vívidas em nós, não há? Ontem enquanto descansava sentada na areia molhada em frente ao mar lembrei-me da primeira vez que o vi. Tinha vindo muitas vezes de férias a Portugal para ir à praia, mas foi numa tarde no princípio do verão na Figueira da Foz que vi, conscientemente, pela primeira vez, o mar.

Fiquei maravilhada. Algo naquele imenso azul, caótico, forte, estridente que simultaneamente me acalmava, apaixonava, me fazia continuamente flutuar.

É dessa forma que ainda hoje me sinto diante do mar. Tanto quanto sei, rara a pessoa que não tenha boas vibrações dali. Portanto, cada momento perto do mar é para se aproveitar e deixar a mente entrar no estado zen.

#1. Faz pausa ao pé do mar

Ver e ouvir a água significa que a nossa mente vai de férias. Dá-nos esse descanso. Estamos rodeados de ruído, e chegamos ao final do dia cansados deste bombardeamento de informação constante. Por isso, quando quiserem relaxar o melhor é ir dar um passeio à beira mar. O som da água é muito mais fácil para o nosso cérebro assimilar do que aquilo que presenciamos no dia-a-dia. Depois, como não tem de trabalhar arduamente para processar, ficamos mais relaxados.

#2. O mar ajuda a meditar

Quando estamos diante do mar, as horas passam e não damos por isso. Facto. O oceano tem esse efeito calmante em nós. Já agora, ao estarmos ali presentes, podemos aproveitar o momento para meditar. Para quem pratica hatha yoga basta aplicar alguns pranayamas que voamos rápido. Associada a esta meditação estão aqueles benefícios que todos procuramos: estado de calma profundo, sem sentir stress e ansiedade, com clareza mental, e consequentemente melhoramos a nossa disposição.

#3. Melhora a criatividade

Eu não canto no chuveiro, tenho pena dos canos que possam eventualmente ouvir a minha capacidade vocal desafinada. Mas é no banho que tenho muitas vezes ideias para escrever (tal como esta sobre o benefício do mar). Isto porque ao estarmos relaxados o cérebro tem tempo para desempenhar novas ligações neuronais. Efeito colateral da água.

Resumindo, a água do mar (ou a água em geral) tem esta enorme capacidade de nos atrair e fazer a mente funcionar com uma calma que não conquistamos na semana atribulada. Para quem estiver na praia, é só relaxar. Quem não tiver mar por perto, um rio ou um duche já ajuda a sossegar a mente.