Posso estar sentada na prancha, sozinha entre os sets, que consigo ouvir o eco dos meus próprios pensamentos: tens de ficar pelo menos uma hora no mar e queimar 400 calorias.
Não sei em que momento passei de uma pessoa que tinha um estilo de vida “normal” para hiperfocada na saúde e bem-estar. As palavras da moda conheço-as todas: microbioma, conexão corpo-mente, terapia de infravermelhos, superfood, biohacking, manipulação hormonal.
Minto.
Eu tenho ideia de quando esse momento começou. Precisamente aos 30 anos, quando a minha médica de família me disse que tinha de comer mais verduras para evitar medicação para o colesterol. Eu mudei nesse dia. Cuidar do meu corpo e da minha saúde passou a ser prioridade.
Com o Apple Watch passei a contar passos e as calorias gastas nos treinos e ao longo do dia. Vai comigo ao mar e, com ele, veio a preocupação com as ondas que apanho ou se estive tempo suficiente para queimar calorias. O lugar que mais me sossega passou a ser também um lugar de monitorização constante da minha performance. Vieram mais treinos, mais atenção ao que como e a procura de respostas na suplementação e na informação sobre as hormonas. Fui acrescentando cuidados à medida que aprendia sobre mim, sobre aquilo a que respondo e que me faz sentir bem.
Fui consistente nesses cuidados e vi resultados
Até ao dia em que não segui o plano e o stress de falhar comigo me fez crer que tinha deitado tudo a perder. Ver o meu corpo oscilar no peso, na energia, na resistência. Estar semanas sem comer açúcar e depois retomar o vício. Dormir noites inteiras para passar a acordar às quatro da manhã. Tanto trabalho para sentir que perdi o rumo no momento em que não risquei mais um item da lista.
O lugar que mais me sossega passou a ser também um lugar de monitorização constante da minha performance.
Susana, Mar de Sal
Tive de pesquisar sobre esta minha inquietação. Jordan Etkin publicou sobre a quantificação das nossas atividades. Nos seus estudos, medir podia levar as pessoas a fazer mais, mas também a desfrutar menos, simplesmente porque a atenção se concentrava no resultado e atividades de que gostavam acabavam por parecer trabalho. Revejo-me nessa descrição.
Gosto de ver o corpo que tenho hoje. De conseguir remar mais, aumentar o peso nos treinos de força. De saber que consigo mais e melhor. Mas, quando avalio cada momento pelos gráficos dos wearables, o prazer de surfar ou treinar torna-se obrigação de responder a um patrão.
Na ambiguidade do bem-estar
E isto leva-me a sentir que estou presa nesta ambiguidade do bem-estar. A indústria oferece-nos, de forma quase inesgotável, ferramentas para encontrar mais algum aspeto a melhorar (ainda mais, se é que é possível). Pode parecer contraditório o que estou a dizer: eu gosto de usar e de saber sobre tudo isto. Acaba por ser mais uma tarefa de trabalho do que o prazer de cuidar de mim. Quando cada desvio parece uma falha, custa mais retomar.
Comecei para tentar controlar o colesterol. Ser consistente foi o plano. Às tantas, já dei por mim a deixar o relógio esquecido em casa.
Agora, estou de novo sentada na prancha, sozinha entre sets. Será que consigo ficar dentro de água sem me questionar se foi suficiente?
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