Há coisas que chegam muito antes ao nosso corpo do que à nossa consciência. A mudança do mar é uma delas.
A manhã já se faz sentir mais fresca, embora o dia ainda seja quente. A água guarda o verão como um segredo prestes a ser descoberto pelas marés vivas a chegar. Lá ao longe, as linhas. O intervalo delas muda. E o som, torna-se mais audível.
Chego à praia, há menos carros no estacionamento. Menos toalhas e chapéus nas dunas. Menos pessoas a entrar no mar. Para um surfista, esta é a melhor época. No verão, o mar está ali para todos. Em setembro, somos nós que regressamos ao mar. Porque as linhas que vemos no horizonte vieram de longe. A energia que chega à costa viajou muito até encontrar o nosso pedaço de areia.
Gosto em particular desta ideia. De que algo pode atravessar uma distância enorme sem vermos o caminho que fez, e confiar apenas que chega. Talvez seja por isso que aprecie os recomeços de setembro. O verão termina no calendário, mas por atraso da natureza, o mar guarda dois mundos: o das ondas que vêm de longe, e o das águas quentes que se estendem mais um pouco. O meu corpo ainda entra no mar sem questionar se vai ter frio. Mas já sabe que a corrente se sente diferente. E que aos poucos, aqueles areais cheios tornam-se mais vazios, mais espaçosos. Ganho com isso espaço para reparar. Sei disto porque se repete há catorze anos, desde que passei a registar a vida de surf.
O mar já foi o meu lugar de fuga. Já foi desafio. Já me pôs medo. Obrigou-me a ser mais forte, mais bonita, mais sereia. Durante muito tempo, foi assim. O mar enquanto mestre da minha vida.
Hoje não o sinto tanto assim.
Ainda é o meu santuário. E por sê-lo, senti que precisava mais do que lições. Era preciso ser um lugar onde pudesse reparar quando o meu corpo pede movimento, quando a minha mente requer espaço, quando o tempo permite viver as histórias que merecem ser vividas. Isto é o que significa, para mim, uma vida de mar. Não necessariamente viver devagar. Ou viver uma vida perfeita, sem consumo, contradições ou até mesmo pegadas, mas uma vida em que começo a perceber melhor o lugar onde estou.
Eu quero continuar a ter uma vida de ondas, de praias limpas, a usar o meu carro para chegar ao mar e usufruir dele. Foi por isso que regressei da Suíça. Querer viver perto do mar e consumi-lo ainda é a minha realidade. E talvez seja isso o que vá explorar por agora. Como viver uma vida de mar que seja boa para mim e em que eu também consiga ser boa para o mar.
Tal como o swell que voltou, eu regresso em plena consciência de que o mar ainda se sente quente e as linhas no horizonte viajaram de longe.
O meu corpo já o sabia antes de começar a escrever.
Por enquanto.


