Enquanto Bali foi um ponto de encontro espiritual, Lombok foi a descoberta de paisagens virgens por explorar. De baías azuis turquesas, passeios de mota entre arrozais e altivas palmeiras, e com surf garantido para os mais experientes, esta é a Indonésia que se quer viver no seu estado mais puro.
Esta minha viagem à Indonésia ficou dividida entre as ilhas de Bali e Lombok. Após uns dias por Uluwatu e aproveitar a boa vibe desta parte da ilha, fui até Kuta, Lombok. Surpreendeu-me a simpatia dos locais, de lhes ver na alma a boa vontade, a harmonia, o querer tratar bem os turistas tão preciosos nestes lugares remotos. É um claro sinal de prosperidade. Surgem os primeiros investimentos a uma escala maior, ainda que muito devagar, nota-se esta vontade de Lombok vingar enquanto destino de férias. Para já, Kuta ainda é uma vila para exploradores, aventureiros, pessoas que procurem por um refúgio da civilização ocidental. Contrasta aqui a Internet, curiosamente, em quase todos os espaços comerciais e de hospitalidade com a falta de água canalizada (diria que as prioridades estão trocadas).
O sossego em Kuta…
Tirando o zumbido constante das motas, consegui em Kuta descansar e desconectar do mundo. Aproveitei conhecer o espaço Mana onde experimentei yoga para surfistas. De longe, para mim, o lugar com mais mística e envolvência para se ficar. Tenho saudades de me sentar no Milk Expresso & Spa de capuccino na mão e a escrever no meu caderno de viagens, de olhos postos na passarela de lambretas rápidas e gente gira a rodopiar (volto a frisar isto, na Indonésia vêem-se de facto pessoas mesmo giras, talvez por andarem todas descontraídas, mas é mesmo tudo giro). Quem lá for ao Milk Expresso, recomendo vivamente que os pequenos-almoços sejam os ovos com abacate ou os batidos e sumos naturais, e depois aproveitar para fazer uma massagem ao estilo sueco, super relaxante, o melhor que fiz para descomplicar os músculos doridos do surf.
… e nas praias também
Tirando duas artérias que atravessam Kuta, o resto da vila bem como os caminhos para as praias são de puro sossego. Aliás, quem até aqui viaja sabe que vai atrás da falta de civilização como a conhecemos. Se por um lado temos Kuta de Bali que se assemelha ao nosso Algarve de agosto (no sentido de que está cheio de turistas e só se vive para eles), Kuta de Lombok está a romper devagar naquela baía. E ainda bem que assim é. De mota exploram-se os caminhos até se descobrir as praias: Mawi, Are Guling, Tanjung Aan, Selong Belanak. O que têm em comum? Águas cristalinas quentes, areias macias de coral, águas de coco e poucas pessoas (a mais preenchida era Selong Belanak com aulas de surf, pequenos bares de praia em bamboo, cadeiras e chapéus de sol para se passar o dia). São na maioria praias por desbravar, simples, puras, onde os surfistas tentam a sorte naquele mar pouco conhecido. Apenas lamento os plásticos espalhados por toda a parte, que na verdade são um problema por toda a Indonésia.
O surf em Lombok

Tal como em Bali, o surf não foi fácil para mim. Acho que ficou a faltar um guia local, um professor de surf para me orientar a explorar as praias certas. Tive vontade de entrar em Mawi, mas a onda impôs respeito. Vi os surfistas a remar muito, a tentar contornar a força das correntes do agueiro e isso comprometeu a minha vontade de experimentar. Felizmente fui abençoada em Gerupuk. Marcámos ponto de encontro às 6 da manhã na receção do hotel. Seguimos viagem num caminho de altos e baixos, pranchas penduradas, muita ansiedade por aquilo que nos esperava. À entrada de Gerupuk os locais aguardavam-nos com os barcos prontos para nos navegar até ao primeiro pico, Don-Don, que funciona tanto à esquerda como à direita e apenas quando o mar está maior. Atirei-me do barco, remei, remei, remei. Espreito por cima do ombro direito e vejo a onda a formar, a sorrir para mim. Vinha de facto na minha direção, deixei-me de coisas, e fiz-me à onda. Uau… Lisa, intensa, interminável (remar de volta para o pico foi a segunda parte do desafio, acho que nunca remei tanto quanto nestas férias). Não me irei esquecer da sensação daquela onda. De longe a melhor experiência de surf que já tive, parecia não acabar. Correu tão bem que no segundo dia repeti, mas mais adiante nesta baía de Gerupuk, no pico chamado Inside. Aqui forma uma direita consistente sob fundo de recife. Apanhei mais crowd, mas a simpatia dos locais e confesso, dos surfistas nipónicos (uma agradável surpresa dentro de água), fez tudo fluir. Fica a dica: vale sempre a pena acordar de madrugada. Ver nascer o dia e surfar ao mesmo tempo fez daquele lugar o meu templo do surf.
O lado trendy de Kuta
Há uma liberdade subjacente nestes lugares distantes no mundo (ou do mundo?). Talvez seja por isso que alguns europeus arrisquem deixar para trás a sociedade ocidental e aqui persistirem. Para quem um dia passar por Kuta, El Bazar e Krnk são dois restaurantes com muita boa onda e comida também. Pertencem ao mesmo proprietário que tem consigo aquela história que tanto queremos ter. A pessoa que abandonou uma carreira internacional das nove às seis na Holanda para descobrir um futuro mais simples em Kuta. Quando lá cheguei, ainda estava a sofrer de Bali Belly (não me livrei disso) e felizmente encontrei nestes lugares o conforto de pratos menos adocicados ou picantes e uma boa dose de kombucha para me ajudar a recuperar. O jantar começa cedo e à noite também, é que logo a seguir vamos ter festa num dos bares de praia (há uma festa por noite, todas as noites). Música ao vivo, venda de cogumelos com fartura, bitangs, miúdas de chinelos e calções, surfistas arranhados pelo fundo coral. Neste misto de culturas conhecemos pessoas de todo o lado, num tempo parado do tempo propenso às conversas soltas pela noite.
FAQ — Lombok
Qual a diferença entre Bali e Lombok para quem vai surfar?
Bali é mais desenvolvida, mais cheia, mais cara. Lombok é o oposto: praias por descobrir, menos crowd para surfar. Se Bali é o ponto de encontro espiritual, Lombok é onde vamos para desaparecer do mundo. Para surf, Gerupuk é o spot que recomendo sem hesitar: barcos até ao pico, ondas consistentes, e uma experiência que não se esquece.
É preciso ter experiência de surf para ir a Lombok?
Ajuda ter bases. As ondas em Mawi podem assustar quem ainda está a aprender com correntes fortes, acesso difícil. Mas Selong Belanak e o inside de Gerupuk funcionam bem para níveis intermédios, ou até iniciantes. Sem experiência nenhuma, contrata um professor local logo à chegada. Vale a pena.
Como se chega a Kuta, Lombok vindo de Bali?
De barco rápido (fast boat) de Padang Bai, Bali, até Lembar ou Bangsal, Lombok e depois táxi até Kuta. Há também voos directos Denpasar–Lombok com a Wings Air ou Garuda. A viagem de barco dura cerca de 4-5 horas mas é a mais barata e dá paisagem.
O que fazer em Kuta, Lombok além do surf?
Alugar uma mota e explorar as praias à volta — Tanjung Aan, Mawi, Are Guling. Fazer yoga no Mana (especialmente yoga para surfistas). Pequeno-almoço no Milk Expresso & Spa com ovos e abacate. Jantar no El Bazar ou no Krnk. E deixar que a noite aconteça sem plano. Há sempre algo a acontecer nos bares de praia.
Lombok é seguro para viajar sozinha?
A minha experiência foi muito positiva. Os locais têm uma simpatia genuína, não de fachada. O maior cuidado é nas estradas — a condução é caótica e de mota sem capacete não é ideia. Os cuidados básicos com a água, já que o nosso corpo não está preparado para os tratamentos que fazem.
Vale mesmo a pena ir a Lombok ou fico só em Bali?
Vai a Lombok. Bali é linda, mas já perdeu parte da magia que Lombok ainda tem. Se tiveres uma semana, recomendo fazer os dois — uns dias em Uluwatu, e depois Kuta.