📸 João da Nova · Ombak

Fluir com a maré

O mar ensina-nos a remar, parar e adaptar-nos. Uma reflexão sobre resiliência, mudanças e porque resistir nem sempre é continuar.

resistir nem sempre é a forma mais corajosa de continuar

Não sei se alguma vez tocaste no mar.

Meia maré a encher, sem vento e, como se diz na gíria do surf, em condições glass. Vês a ondulação a formar-se na linha do horizonte e a dançar a passos lentos na tua direção. Ora enrolam para a direita, ora para a esquerda.

Ajeitas o teu corpo na prancha para remar. Sabes que vem na tua direção. Sabes que uma das ondas é a tua.

Dás por ti a remar com felicidade. Cada braçada, cada respiração, em sintonia. Sentes a onda por baixo do teu corpo, da tua prancha. Deixas-te erguer, viras a prancha para a parede da onda, ouves o que ela te diz, fletes os joelhos e deslizas a mão entre a espuma e os mil tons de azul.

Esta sensação de estar presente. De estar consciente do momento. De ter dado a oportunidade de viver a vida como ela pede para ser vivida.

E o tocar no mar.

Mas depois, vem a mudança da maré.

O mar cresce. Um wipeout que te atira para o fundo num instante que parece infinito. Sentes a imponência do mar empurrar-te para lá da superfície, onde perdes a noção se estás virado a norte ou a sul, a direito ou de pernas para o ar. Simplesmente a sentir a força da onda a tirar-te daquela que era a tua.

O mar desaparece. E a missão de remar e apanhar mais ondas morre ali. O mar embrutece. De tal forma que nem temos coragem de entrar. O mar é o mar no seu todo.

E como podemos nós saber surfar se temos tantos altos e baixos, instantes, sempre instantes para viver?

A prática de ir ao mar, de meter o nosso corpo em contacto com a água, ensina-nos a ler. Quando remar com intenção. Quando sair. Quando passar por baixo. Quando ficar quieta à espera que o mar me diga qualquer coisa. Nenhuma delas é mais corajosa do que a outra. As tempestades e as bonanças nunca vêm para ficar. Estão sempre de passagem. Sabê-lo não é o mesmo que aguentá-lo, e é por isso que se treina no mar e não nas palavras.

A resiliência não é fixa, é maré. É habilidosa. Faz-te remar, levantar, mergulhar, pondo-te à prova. Faz-te equilibrar. Seguir em frente, sentindo a onda. E, muitas vezes, obriga-te a parar.

Porque para saber surfar, há que aceitar todos os momentos. Perceber que nem sempre vamos na direção que queremos, mas naquela que precisamos de seguir para aprender. A ler o mar. A saber onde nos colocar antes de remar. Acima de tudo, a perceber que resistir não é sinónimo de resiliência.


O João da Nova, da Ombak tirou-me a fotografia. Além de ser meu amigo, é o meu surf buddy há anos. Sempre que me diz para ir surfar, sei que o mar vai estar nas condições que gosto e em que me sinto confortável para entrar. É professor de surf. Mas a Ombak não é uma escola. É ir surfar com um amigo, de forma descontraída, com acompanhamento dentro de água e direito a sessão fotográfica. Fica a minha recomendação.

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