Continuar quando a nossa mente só nos pede para desistir

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O swell voltou. Eu também. Mas não voltámos os dois na mesma forma.

O mar já voltou a crescer, e ainda não ganhei o ritmo que pede. Não é só o corpo que me falha. É a minha consistência. O ir ao mar, vezes sem conta, para nunca perder esse flow. Ainda no fim de semana ouvi umas sábias palavras, enquanto estudava onde ia entrar. Eu disse: “Serei sempre uma estagiária no surf. É que sou surfista com alma; aquela que se diverte.“

A resposta ainda me cai como uma alga azeda trincada por acidente: “Só se evolui no surf com experiência. É uma progressão muito lenta, mas tens de aparecer.”

A verdade é que é isto que me acontece com frequência. E, por acontecer, tive de perceber o porquê.

Há dias em que ainda nem entrei no mar e já estou à procura de uma razão para não o fazer. O mar está maior do que vi nas câmaras, as séries não me vão deixar descansar entre remadas, amanhã o mar já cai… Podia estar aqui nisto, horas a fio. Às vezes, chego a acertar na leitura. Conheço os meus limites. É o que me mantém segura. Mas depois, prevalece este lado: se estivesse mais fácil, até que entrava.

O mar grande tem esta capacidade de tornar a minha hesitação visível. Fico na areia, a olhar, enquanto dentro de mim se discutem todas as variáveis. Quem me vê, especada na areia, pensa que estou a observar o mar. Na verdade, estou em assembleia.

Com a prática, há coisas que deixam de precisar de tanta conversa interior. Foi o que li em Hábitos Atómicos de James Clear. Ele explica como a repetição ajuda um comportamento a tornar-se mais automático. Já não precisamos de pensar em todos os passos do processo. No surf, reconheço isso nos movimentos que fui repetindo até se tornarem naturais. É aquilo a que chamamos memória muscular. Deixo de precisar de pensar tanto em cada movimento e presto mais atenção ao mar. A assembleia pode até nem terminar ali, mas reduzo uma parte dos assuntos a discutir.

E esta conversa interior, acompanha-me, também fora de água.

Tenho uma ideia. Começo cheia de vontade, dou-lhe umas pitadas de tempo e outras de imaginação. Com uns toques e retoques, ganha forma. Depois deixa de ser novidade. Não traz logo resultados, isso demora. Fico com dúvidas sobre o que fiz, se valerá assim tanto a pena, e a mesma cabeça que engendrou tudo, começa a desenhar o plano de saída, com todas as justificações e mais alguma.

Ainda quero isto?

Tento manter essa pergunta presente tanto no mar como na vida. Continuo no surf? Não deixei de gostar, mas a condições exigentes fazem-me questionar.

Estou de volta ao momento da areia. Leio o mar, o pico. Onde estão os surfistas. Onde posso entrar. O ritmo dos sets. Tenho tempo para remar depressa para o outside? Quantos duck dives? Às vezes decido ficar; outras, arriscar mesmo com medo. Não tenho de me sentir pronta para tentar.

O que me faz voltar?

Porque não quero ser vista (e muito menos por mim própria) como a pessoa que começa algo e deixa a meio.

Para continuar, só há um caminho. Ser consistente na mente, e consequentemente, na presença. Devia ser fácil fazê-lo no mar. Gosto do surf. De estar na água, de deslizar nas ondas. No entanto, não gosto de todas as sessões.

Fui aprendendo ao longo da vida que a confiança se ganha através da experiência. Pesquisei sobre isto. Um estudo de Albert Bandura e colegas mostra que conseguir fazer algo que nos dá medo pode ajudar-nos a ganhar confiança. No surf, isso significa, para mim, chegar ao outside num dia em que duvidava conseguir, descer uma onda que antes deixava escapar. Não deixei de ter medo. Mas sair das sessões com estas pequenas conquistas ajuda-me a ver que sou capaz, mesmo quando acho que não sou.

A decisão muda tudo

Estamos em outubro. O mar pede que eu vá, mais do que nunca. Mas tem uma força, um poder que me mostra que ficar a observar da areia é a decisão mais sensata para mim.

A minha consistência tem de caber nesse mar; e não a posso medir apenas pelo número de vezes que vou, como se as condições fossem sempre as mesmas. Na vida, também mudam. Nos dias em que a minha determinação leva a melhor, sinto-me invencível. Nos restantes, continuar significa fazer menos do que imaginei e lidar com a frustração de não estar onde queria estar. É aqui que a minha cabeça costuma propor a saída.

Quando não faço o que me me propus fazer, concluo logo que não vou conseguir. Mas uma coisa é não aparecer um dia, outra completamente diferente é a história que conto a mim própria de que não vale a pena voltar.

Então, em que ficamos?

Talvez hoje não precise de decidir a minha vida toda. Posso ficar com o que consigo fazer, nas condições que tenho, e avaliar depois. Sem garantir que vai resultar ou exigir um entusiasmo contagiante. Para mim e para os outros.

Olho de novo para o mar.

Os sets estão acima do metro e meio.

A minha cabeça continua em assembleia. Mas a decisão de ser consistente fica escrita em ata.

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