Tinha 25 anos quando me atrevi a experimentar o surf pela primeira vez. Cinco anos depois, decidi que ia ser algo importante na minha vida. E assim se cumpre esta promessa, religiosamente, há quase três anos.
A primeira vez que escrevi sobre o que o mar ensina, falei de paciência, coragem, esperança, amizade e gratidão. Estava a dar os primeiros passos no surf. E, talvez também, a aprender também passos que ainda me faltavam na vida.
Pelo caminho, já passei por muitas marés, surf e até mesmo da falta dele. Tive medo, enfrentei correntes, viajei para outros mares, tive dias em que entrei no mar sem pensar duas vezes e outros em que nem cheguei a sair do carro. O que posso dizer hoje é que, dentro ou fora do mar, ele continua a ensinar.
Paciência
Chamei-lhe de paciência. Às vezes, ainda lhe chamo. Mas há algo mais profundo do que isso: o mar ensinou-me a esperar. No line-up podemos passar uma eternidade à espera de uma onda. Continuo a acreditar nisso. O que mudou em mim foi a forma de olhar para essa mesma espera. Naquela altura, era uma espécie de intervalo. Contava o tempo até chegar o próximo set, perguntava-me o que estava ali a fazer. Hoje sei que essa espera faz parte, e importa. Porque só assim consigo tomar a decisão de escolher a minha onda. Há dias em que a deixo passar simplesmente por saber que não é minha para apanhar.
O mar não tem pressa. E nunca teve a obrigação de ter a minha.
Coragem
Nunca sabemos as correntes que passam por debaixo da nossa prancha. Escrevi isto muito antes de perceber o que significava. Já tive acidentes dentro de água; parti a cabeça. Erro de kook, que não coloca as mãos a proteger a cabeça na queda. Lembro-me ainda hoje da pancada e da forma como vinha perdida e embrulhada nas espumas até levar com a quilha da prancha. Coragem foi o que aprendi uma semana mais tarde: voltar depois de sair magoada. Eu fiz questão de regressar o mais depressa possível. Não queria ficar marcada para sempre por aquele episódio e deixar de ir. Não queria que o mar me intimidasse para sempre. Entrar uma vez no mar, entramos todos. Voltar depois de ganhar medo pede coragem.
Rendição
Esta lição de mar não estava na primeira lista. Não podia estar antes de eu passar por mais momentos. Houve um dia em que eu fui arrastada pela corrente. Dei por mim a afastar-me mais do que devia, e remei com toda a força e determinação para sair dali. Mas sentia que, que por mais que lutasse, estava sempre distante da terra. Quando parei, quando decidi que o cansaço ia trazer mais estragos do que benefícios, rendi-me. Parei para sentir o que o mar me dizia, e comecei a remar paralela à costa, em direção aos pontões. Foi assim que voltei a sair do mar. Render-me ao mar ensinou-me a escolher onde gastar força e energia. Dentro de água e fora dela.
Presença
Lá fora, no outside, há um tempo que não encontro em mais lado nenhum. A água bate na prancha, os meus braços entram no mar para remar, o horizonte mexe-se na minha direção, o corpo está atento ao que se aproxima. O mar dá-me esta lição gratuitamente sempre que vou surfar: o único tempo que existe é o momento presente. Ali e agora.
Amizade
Há dez anos escrevi que era raro o dia em que entrava sozinha no mar. Continua a ser verdade. Para mim o surf é uma atividade desportiva muito individual. Mas, por ir sozinha, acabei por criar amizades inesperadas. Aquilo de encontrar a própria tribo. E não preciso de combinar com ninguém. Eu sei que algures na onda onde estou vou encontrar um sorriso conhecido, alguém sempre por perto que queira tanto quanto eu apanhar ondas nesta simplicidade que é a vida de surfista.
E o que fica?
Sobra-me aquele dia em que o mar ensina fora dele, em que fico sentada no carro a observar a força e impoência dele que, com a sua altivez, me mostra que aquele momento não é meu. Apenas dele. Da sua energia. E eu aprendo que nem todo o mar é para surfar. O que me leva de volta a ter paciência.



