Debaixo do véu do esquecimento

tudo é instante.

Esqueço-me de tudo quando estou no mar. E é exatamente sobre o esquecimento que quero falar. Este é um bom esquecimento. Consciente até. Vontade própria de simplesmente estar em sintonia.

Domingo de manhã, acordo cedo como sempre. O mar está pequeno. Contrario a cabeça, enfio a prancha no carro e deixo-me levar até à Fonte da Telha. O processo de esquecer começa aqui, talvez nem seja bem esquecer, é antes um piloto-automático. Não me lembro de fazer o caminho. Nem de atravessar a ponte. Chego e o João já está no mar. Vou entrar em frente ao Rampa, deixa na mensagem.

Não é difícil perceber onde está. Conheço a prancha, o estilo. O pior é estacionar. Levo as tralhas para a praia, visto o fato, e peço a um casal para ficar de olho nas minhas coisas. Está sol. Maravida, penso eu, tal como eu gosto. A maré a vazar e eu entro nas calmas. Sei para o que vou. Não há correntes nem enchentes, ainda é cedo.

Umas quantas braçadas depois estou-me a queixar mentalmente da falta de mar. A resistência ao mar. Não é por não fazer exercício físico. É mesmo isto de ganhar fluidez, leveza, para remar em flow. A única forma de vencer é persistir. Uma onda, duas ondas, uma mão cheia de ondas. Depois outra. Dou por mim a sorrir largamente. Juro que o faço com absoluto descontrolo muscular no rosto; é dentro que vem essa alegria. Esqueço-me do mundo. Da minha vida. Dos momentos que estou a viver. O efeito Blue Mind de que Wallace J. Nichols fala.

Só não me esqueço de voltar para o pico. De resto, a mente flui ao sabor das marés. E quando saio, feliz comigo, por ter ido mesmo que contrariada, por ter conseguido apanhar muitas ondas, pela sensação de flutuar, feliz por me voltar a lembrar de como é bom gostar assim tanto do mar. De tudo. Puro estado de estar presente.

As nuvens, com quem me tinha cruzado ainda na A5, chegavam lentamente pela margem. Entre o cheiro a maresia e o cinzento místico da neblina, a memória parece reativar-se. E é sobre esse manto que me cobre, que esconde o limite da areia e do mar, que se torna óbvia a comparação.

A vida é feita de instantes. A demência do meu pai mostra-me isso com a maior certeza. Absoluta e infalível. Eu fico tempos sem entrar no mar. Ele fica tempos sem se lembrar. Quando regresso, é sempre esta alegria inocente, desmemoriada, desprovida de pensamento. Apenas se sente. E esses instantes tornam-se nos momentos que nos sobram. Eu na prancha, o meu pai na memória.

E o mais curioso? Por mais que eu esteja ali no mar, por mais esquecimento que me provoque, estou em sintonia.

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