Uma reflexão sobre recomeços, saudade e a liberdade que só o oceano nos ensina
Hoje tenho uma boa onda para partilhar.
Aquela de meio metro que se desdobra contorcida numa criança feliz, sem tempo para desperdiçar. Como é bom não parar um segundo e querer a todo o instante sentir esta vida ondular que desliza entre o leve sopro da brisa e a energia contagiante do mar. Isto para te admitir, voltei ao mar. A amar o mar.
Se gostas de apanhar ondas, fica por aqui. O Mar de Sal cresce com cada leitor curioso e apaixonado pelo mar. Subscreve para não perderes as próximas marés.
Pensei que não fosse capaz, que ali tivesse para sempre uma memória associada, ainda que de bons momentos, mas que refletisse a saudade. Saudade pesada, ancorada a uma vida que não volta mais à tona e afunda, profunda. Só que encontrei na minha prancha a tábua de salvação. A capacidade de mergulhar por baixo de cada onda, rebentação, espuma branca e regressar, rompendo pela crista acima.
Sem Saudade.
Depois, passei também a saber que basta encontrar o foco, não pensar, focar para onde quero navegar a vida e deixar-me ir. Posso cair, posso levar com a tábua cabeça, esta pode de novo partir, mas como Buda diz, por pior que tenha sido o passado, podemos e devemos sempre recomeçar. E é isso que me ensina o mar.
Estou grata por permanecer em mim a curiosidade ingénua de uma criança que desbrava o mundo no primeiro andar. Observar assim mesmo como se tudo fosse a primeira vez nesta intensidade ondular da vida que vai e vem, traz e leva, retira e devolve, e só aproveita quem se deixar levar pelo mar. Como os carreirinhos que fazemos de braços estendidos e biquínis perdidos, enrolados e divertidos, nas ondas tombando ininterruptamente de puro espaço e lúcida unidade, onde apenas encontramos, apaixonadamente, a nossa própria liberdade*.
Por isso, não fazia sentido ficar com saudade de um momento que não é meu, de uma saudade que não me faz sentir a superfície. De uma saudade que não vale a pena ser saudade. Porque o que se quer é sentir uma gratidão profunda por tudo o que o universo nos dá, sempre em medida certa. Ondas grandes, ondas pequenas, ondas picadas e revoltadas. Puras ondas. Boas ondas.
Tinha mesmo de voltar ao mar. Acima de tudo, a amar o mar.