Quando os sentidos ficam mudos, o swell decide por nós
Eu escrevo sobre o mar, mas na verdade nunca é só sobre o mar. É quase sempre sobre a vida.
Um último surf para me despedir das ondas de 2025. Está frio, o meu corpo entorpece, fico menos ágil e, logo à partida sendo esse o meu mindset, já ditei como vai ser a sessão. Inúmeras desculpas para ficar. Inúmeras desculpas para ir. Inúmeras desculpas para não me meter no mar.
Visto o fato encostada ao carro para me proteger do vento norte. Vou de botas porque o que mais me custa nem é tanto entrar no mar, mas sim regressar ao ponto de partida — o alcatrão vira gelo ao ponto de cortar os pés. Vou pôr os SurfEars, assim não há otites, e vou levar o otimismo comigo. Tu consegues tudo, diz a minha avó lá do outside (e às tantas batem umas saudades desgraçadas de quando me dizia vais ao mar com este frio, tu és maluca).
Consigo, Avó.
Ir com frio. Sem frio. Simplesmente ir.
Mas só até a cabeça não conseguir.
Entro pelo pontão, mais fácil e menos braçadas. A maré já está a vazar; eu nunca gosto de meia maré a vazar porque fecha muito (desculpa ou preferência, é discutível) — e lá vou neste pequeno corpo alapado à prancha e com uma falta de resistência incrível ao surf (esta só se tem quando somos consistentes e não fui muito este ano). Vamos mais para a esquerda, onde a onda não fecha tanto; está mais deitada, não aquela parede fixa, mas curva. Dou por mim a apanhar a primeira direita. Para quem é goofy como eu, sabe a excitação que é apanhar a direita: zero jeito, mas nada na vida supera a sensação de conseguir algo, sempre como se fosse a primeira vez.
E na verdade, quando apanho uma onda, personifico a frase da minha avó:
Tu consegues tudo.
E consigo.
Consigo mesmo.
O truque é focar nos sentidos. Uso-os para ler, ver, ouvir e sentir o mar. E quanto mais foco neles, menos dou pelo ruído à minha volta. Sei onde ir, onde estar, onde ficar. No surf, só podemos entrar no mar com essa intenção. Se vamos para dentro de água já diluídos em vontade e foco, sem disciplina, somos arrastados por uma corrente inesperada, por uma ondulação tão potente que nem nos dá tempo para perceber como tudo começou.
Mas esta surfada não correu como esperava. Nem a vida.
Entrei em pânico.
Não usei os meus sentidos para ler, ver, ouvir ou sentir (saborear) o mar. Não percebi que ia ser atropelada desta maneira, ser levada para fora quando queria estar dentro. Deixei que as emoções toldassem o meu discernimento. A respiração acelerou; o medo enrijeceu-me o corpo; fui assaltada por uma impotência de continuar, de enfrentar o mar (e a vida).
Não me apareceu uma voz para me salvar, para me orientar, dizer vai, fica ou sente.
Na verdade, não tive tempo de sentir a perda da minha avó, nem tão pouco processar esta despedida diária do meu pai como uma maré que teima em vazar quando a quero a encher, ou até mesmo perceber a corrente que se movia debaixo de mim enquanto eu insistia em estar onde já não estava.
Não dei pelos meus sentidos nem pela mudança de maré na vida. Por isso, não percebi que ia levar consigo nomes, rostos, histórias e acabou por me arrastar para lá do outside. Ali, longe, sozinha, perdida, sem saber como voltar, sem saber como me salvar. Mas o meu corpo já sabia. Não por coragem. Bastava ver, ouvir, tocar para saber onde ir, estar, ficar. E sentir.
Acabo o ano a meio do mar, perdida na corrente, a aprender à força que não é a onda que me vence, mas o silenciar dos meus sentidos.
Mas ainda bem que o meu mar continua aqui para me ensinar e a remar de volta a esta vida em que consigo tudo.