{"id":741,"date":"2026-06-09T12:09:14","date_gmt":"2026-06-09T12:09:14","guid":{"rendered":"https:\/\/mardesal.pt\/?p=741"},"modified":"2026-06-09T12:09:16","modified_gmt":"2026-06-09T12:09:16","slug":"debaixo-do-veu-do-esquecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mardesal.pt\/debaixo-do-veu-do-esquecimento\/","title":{"rendered":"Debaixo do v\u00e9u do esquecimento"},"content":{"rendered":"\n<h3 id=\"tudo-e-instante\" class=\"wp-block-heading\">tudo \u00e9 instante.<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esque\u00e7o-me de tudo quando estou no mar. E \u00e9 exatamente sobre o esquecimento que quero falar. Este \u00e9 um bom esquecimento. Consciente at\u00e9. Vontade pr\u00f3pria de simplesmente estar em sintonia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Domingo de manh\u00e3, acordo cedo como sempre. O mar est\u00e1 pequeno. Contrario a cabe\u00e7a, enfio a prancha no carro e deixo-me levar at\u00e9 \u00e0 Fonte da Telha. O processo de esquecer come\u00e7a aqui, talvez nem seja bem esquecer, \u00e9 antes um piloto-autom\u00e1tico. N\u00e3o me lembro de fazer o caminho. Nem de atravessar a ponte. Chego e o Jo\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 no mar.\u00a0<em>Vou entrar em frente ao Rampa,\u00a0<\/em>deixa na mensagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber onde est\u00e1. Conhe\u00e7o a prancha, o estilo. O pior \u00e9 estacionar. Levo as tralhas para a praia, visto o fato, e pe\u00e7o a um casal para ficar de olho nas minhas coisas. Est\u00e1 sol.\u00a0<em>Maravida<\/em>, penso eu, tal como eu gosto. A mar\u00e9 a vazar e eu entro nas calmas. Sei para o que vou. N\u00e3o h\u00e1 correntes nem enchentes, ainda \u00e9 cedo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Umas quantas bra\u00e7adas depois estou-me a queixar mentalmente da falta de mar. A resist\u00eancia ao mar. N\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o fazer exerc\u00edcio f\u00edsico. \u00c9 mesmo isto de ganhar fluidez, leveza, para remar em\u00a0<em>flow<\/em>. A \u00fanica forma de vencer \u00e9 persistir. Uma onda, duas ondas, uma m\u00e3o cheia de ondas. Depois outra. Dou por mim a sorrir largamente. Juro que o fa\u00e7o com absoluto descontrolo muscular no rosto; \u00e9 dentro que vem essa alegria. Esque\u00e7o-me do mundo. Da minha vida. Dos momentos que estou a viver. O efeito Blue Mind de que Wallace J. Nichols fala.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 n\u00e3o me esque\u00e7o de voltar para o pico. De resto, a mente flui ao sabor das mar\u00e9s. E quando saio, feliz comigo, por ter ido mesmo que contrariada, por ter conseguido apanhar muitas ondas, pela sensa\u00e7\u00e3o de flutuar, feliz por me voltar a lembrar de como \u00e9 bom gostar assim tanto do mar. De tudo. Puro estado de estar presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As nuvens, com quem me tinha cruzado ainda na A5, chegavam lentamente pela margem. Entre o cheiro a maresia e o cinzento m\u00edstico da neblina, a mem\u00f3ria parece reativar-se. E \u00e9 sobre esse manto que me cobre, que esconde o limite da areia e do mar, que se torna \u00f3bvia a compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vida \u00e9 feita de instantes. A dem\u00eancia do meu pai mostra-me isso com a maior certeza. Absoluta e infal\u00edvel. Eu fico tempos sem entrar no mar. Ele fica tempos sem se lembrar. Quando regresso, \u00e9 sempre esta alegria inocente, desmemoriada, desprovida de pensamento. Apenas se sente. E esses instantes tornam-se nos momentos que nos sobram. Eu na prancha, o meu pai na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o mais curioso? Por mais que eu esteja ali no mar, por mais esquecimento que me provoque, estou em sintonia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"tudo \u00e9 instante. Esque\u00e7o-me de tudo quando estou no mar. E \u00e9 exatamente sobre o esquecimento que quero&hellip;\n","protected":false},"author":1,"featured_media":742,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-741","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-wavemind"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=741"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/741\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":743,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/741\/revisions\/743"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/742"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}