{"id":688,"date":"2025-12-31T22:18:38","date_gmt":"2025-12-31T22:18:38","guid":{"rendered":"https:\/\/mardesal.pt\/?p=688"},"modified":"2026-06-08T22:34:27","modified_gmt":"2026-06-08T22:34:27","slug":"errar-no-mar-errar-na-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mardesal.pt\/errar-no-mar-errar-na-vida\/","title":{"rendered":"errar no mar, errar na vida."},"content":{"rendered":"\n<h4 id=\"quando-os-sentidos-ficam-mudos-o-swell-decide-por-nos\" class=\"wp-block-heading has-medium-font-size\">Quando os sentidos ficam mudos, o swell decide por n\u00f3s<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eu escrevo sobre o mar, mas na verdade nunca \u00e9 s\u00f3 sobre o mar. \u00c9 quase sempre sobre a vida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um \u00faltimo surf para me despedir das ondas de 2025. Est\u00e1 frio, o meu corpo entorpece, fico menos \u00e1gil e, logo \u00e0 partida sendo esse o meu\u00a0<em>mindset<\/em>, j\u00e1 ditei como vai ser a sess\u00e3o. In\u00fameras desculpas para ficar. In\u00fameras desculpas para ir. In\u00fameras desculpas para n\u00e3o me meter no mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Visto o fato encostada ao carro para me proteger do vento norte. Vou de botas porque o que mais me custa nem \u00e9 tanto entrar no mar, mas sim regressar ao ponto de partida \u2014 o alcatr\u00e3o vira gelo ao ponto de cortar os p\u00e9s. Vou p\u00f4r os SurfEars, assim n\u00e3o h\u00e1 otites, e vou levar o otimismo comigo.\u00a0<em>Tu consegues tudo<\/em>, diz a minha av\u00f3 l\u00e1 do outside (e \u00e0s tantas batem umas saudades desgra\u00e7adas de quando me dizia\u00a0<em>vais ao mar com este frio, tu \u00e9s maluca<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><em>Consigo, Av\u00f3.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ir com frio. Sem frio. Simplesmente ir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas s\u00f3 at\u00e9 a cabe\u00e7a n\u00e3o conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entro pelo pont\u00e3o, mais f\u00e1cil e menos bra\u00e7adas. A mar\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 a vazar; eu nunca gosto de meia mar\u00e9 a vazar porque fecha muito (desculpa ou prefer\u00eancia, \u00e9 discut\u00edvel) \u2014 e l\u00e1 vou neste pequeno corpo alapado \u00e0 prancha e com uma falta de resist\u00eancia incr\u00edvel ao surf (esta s\u00f3 se tem quando somos consistentes e n\u00e3o fui muito este ano). Vamos mais para a esquerda, onde a onda n\u00e3o fecha tanto; est\u00e1 mais deitada, n\u00e3o aquela parede fixa, mas curva. Dou por mim a apanhar a primeira direita. Para quem \u00e9\u00a0<em>goofy<\/em>\u00a0como eu, sabe a excita\u00e7\u00e3o que \u00e9 apanhar a direita: zero jeito, mas nada na vida supera a sensa\u00e7\u00e3o de conseguir algo, sempre como se fosse a primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E na verdade, quando apanho uma onda, personifico a frase da minha av\u00f3:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tu consegues tudo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E consigo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O truque \u00e9 focar nos sentidos. Uso-os para ler, ver, ouvir e sentir o mar. E quanto mais foco neles, menos dou pelo ru\u00eddo \u00e0 minha volta. Sei onde ir, onde estar, onde ficar. No surf, s\u00f3 podemos entrar no mar com essa inten\u00e7\u00e3o. Se vamos para dentro de \u00e1gua j\u00e1 dilu\u00eddos em vontade e foco, sem disciplina, somos arrastados por uma corrente inesperada, por uma ondula\u00e7\u00e3o t\u00e3o potente que nem nos d\u00e1 tempo para perceber como tudo come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas esta surfada n\u00e3o correu como esperava. Nem a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrei em p\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o usei os meus sentidos para ler, ver, ouvir ou sentir (saborear) o mar. N\u00e3o percebi que ia ser atropelada desta maneira, ser levada para fora quando queria estar dentro. Deixei que as emo\u00e7\u00f5es toldassem o meu discernimento. A respira\u00e7\u00e3o acelerou; o medo enrijeceu-me o corpo; fui assaltada por uma impot\u00eancia de continuar, de enfrentar o mar (e a vida).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o me apareceu uma voz para me salvar, para me orientar, dizer vai, fica ou sente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, n\u00e3o tive tempo de sentir a perda da minha av\u00f3, nem t\u00e3o pouco processar esta despedida di\u00e1ria do meu pai como uma mar\u00e9 que teima em vazar quando a quero a encher, ou at\u00e9 mesmo perceber a corrente que se movia debaixo de mim enquanto eu insistia em estar onde j\u00e1 n\u00e3o estava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o dei pelos meus sentidos nem pela mudan\u00e7a de mar\u00e9 na vida. Por isso, n\u00e3o percebi que ia levar consigo nomes, rostos, hist\u00f3rias e acabou por me arrastar para l\u00e1 do\u00a0<em>outside<\/em>. Ali, longe, sozinha, perdida, sem saber como voltar, sem saber como me salvar. Mas o meu corpo j\u00e1 sabia. N\u00e3o por coragem. Bastava ver, ouvir, tocar para saber onde ir, estar, ficar. E sentir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acabo o ano a meio do mar, perdida na corrente, a aprender \u00e0 for\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 a onda que me vence, mas o silenciar dos meus sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ainda bem que o meu mar continua aqui para me ensinar e a remar de volta a esta vida em que consigo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/substack.com\/profile\/393865843-eva-meirelles\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/substack.com\/@mardsal\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eu escrevo sobre o mar, mas na verdade nunca \u00e9 s\u00f3 sobre o mar. \u00c9 quase sempre sobre a vida.\n","protected":false},"author":1,"featured_media":690,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-688","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-wavestories"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=688"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/688\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":691,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/688\/revisions\/691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mardesal.pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}