Aulas de surf: sim ou não?

Se nunca tentaste surfar, a resposta é positiva. Se és daquelas pessoas que sempre quis experimentar mas nunca arriscou, a resposta também é positiva. Se entras no grupo de quem já rema por esse mar adentro sem receio, a resposta também é positiva. Aulas de surf: sim!

Fiz essa pergunta várias vezes, será que preciso de marcar umas aulas de surf? Mas como qualquer outro desporto ou atividade na vida, as aulas são vitais para ganhar confiança, conhecimento, e em especial no surf, pela dificuldade de saber ler o mar, pela correção postural, pelo incentivo constante e obviamente, pela comunidade e amigos que nascem na convivência – acabamos todos por perceber que a paixão do surf nos une irremediavelmente.

Já aqui partilhei momentos mais complicados que o surf me proporcionou, correntes inexplicáveis, agueiros traiçoeiros, pranchas que quebram cabeças, mas nada disto eu teria superado nas calmas sem as aulas de surf. Felizmente, hoje, temos muita oferta, escolas de norte a sul do país, umas mais profissionais do que outras, mas a verdade que para principiantes eles têm a melhor estrutura que possas precisar para as primeiras espumas.

Os benefícos das aulas de surf

Desde a prancha, ao fato a professores (giros, cof cof) prontos a empurrar pelas espumas, torna-se muito mais fácil aprender. E a ganhar confiança. Eles explicam para onde ir, para onde olhar, quando levantar. O melhor de tudo é ter direito a expressões de incentivo, ainda que por vezes em tom de gozo — já estás a levar nas orelhas, que na verdade resultam no empurrão que precisamos para enfrentar a onda sem ajuda e com toda a certeza de que a vamos cortar.

Confesso que comecei ao contrário. Primeiro experimentei sozinha, com pranchas emprestadas, sem perceber muito bem o que fazer. Depois lá resolvi inscrever-me na Lufi Surf School e dominar a Costa da Caparica. Fiz 10 aulas. No meu caso foi suficiente para passar a ir sozinha para as espumas, para as primeiras ondas e depois meter-me em aulas intermediárias com o Ricardo Pina (tem agora uma surfhouse em São João, a Lisbon Surf Villa e continua a dar aulas) que me fez atrever a surfar qualquer mar sob as suas ordens sempre didáticas – aquele rema, rema, rema agora, inesquecível.

Ainda que não tenha fotografias, apenas as gravadas na memória, estive recentemente por Lisboa e regressei às aulas, desta vez com o Filipe da Go Surf Lisboa. Tenho outra maturidade ao entrar no mar, ainda me falta muita confiança para me fazer à onda, no entanto, foram-me feitas correções, vicíos digamos, que fizeram toda a diferença na onda a seguir.

O resultado é que me senti sempre melhor depois de umas aulas, porque percebo onde erro, e esta consciência faz-me evoluir, querer ser, na verdade, melhor. Portanto, eu sou apologista e defensora das aulas porque:

  1. Dão confiança.
  2. Ensinam a interpretar o mar.
  3. Vais perceber facilmente quando é que é o momento certo para o pop-up.
  4. Ensinam coisas básicas como cuidar da prancha, enrolar o leash, a lavar o fato.
  5. Motivam-nos a continuar.

Não importa o nosso nível no surf. As aulas devem ser feitas por todos que querem ser melhores, e para isso é preciso ter a humildade de reconhecer que “eu posso aprender”.

Treinar o surf no asfalto com um Carver Skateboard

O meu primeiro skate foi um Penny. Não me recordo se o meu era o amarelo ou azul, mas era uber cool ir para a escola, nos anos 90, de skate nos pés. No fundo, sempre gostei desta sensação de andar livremente pela estrada fora ao estilo indie Woodstock dos tempos modernos. Quando passei para o surf, o skate estava adormecido até perceber a semelhança dos movimentos e a liberdade subjacente entre as duas atividades. Tudo isto para justificar a chegada de um Carver na minha vida.

Apesar de não haver mar na Suíça, há a vantagem de ter estradas muito boas para andar de skate. Desde que cheguei passou-me a fazer cada vez mais sentido ter um surf skate para me divertir nas ruas e trazer à minha memória um pouco da sensação do surf. É o que faz morar num país da europa central. O que eu espero é que com esta nova prática a minha próxima surfada não seja um começo do zero. Segundo li no The Inertia andar de skate pode mesmo ajudar a melhorar a performance no mar, mais ainda, quando se trata de um skate desenhado para replicar os movimentos do surf como acontece com o Carver.

Compromisso

O surf é assustador, mas andar de skate supera pela proximidade que temos com o alcatrão. De acordo com David, autor do artigo, quando começamos a praticar manobras na estrada estamos a lidar de caras com o nosso receio. Isto faz com que fiquemos um pouco mais audazes a experimentar as manobras no mar. Assim espero (evidentemente sem ir com o rosto ao chão).

Repetição

Uma das vantagens óbvias do skate é poder repetir a manobra que queremos treinar vezes sem conta. No mar, há que esperar sempre pela onda e já sabemos como é que isso corre. A repetição é amiga da técnica. Espero sacar um bottom turn na próxima surfada com a mesma agilidade com que brinco com o skate.

Equilíbrio

A postura no skate e surf são muito semelhantes, exigindo o mesmo tipo de equilíbrio. Confirmo. Andar de skate desafia-nos constantemente o ponto equilíbrio, precisamos de usar os braços e as pernas, além obviamente do core para corrigir o desequilíbrio. Tudo isto se faz e repete no surf.

Os pros também andam de skate

Basta espreitar as redes sociais do John John Florence e encontrar videos dele a deslizar no asfalto. Diz o miúdo maravilha que andar de skate “dá-nos a oportunidade de treinar vezes sem conta uma manobra, o que não acontece no surf” (Stab Magazine | Surfing is the most difficult sport in the world). Ainda que não ande de skate com a intenção de melhorar o surf, prova ser uma consequência lógica a qualquer pessoa que queira fazer algo mais pelo surf fora de água.

Por isso, enquanto uns evoluem no surf dentro de água, os surfistas presos em terra tornam-se criativos e transformam estradas em ondas.

Lombok, que a civilização demore a chegar

Enquanto Bali foi um ponto de encontro espiritual, Lombok foi a descoberta de paisagens virgens por explorar. De baías azuis turquesas, passeios de mota entre arrozais e altivas palmeiras, e com surf garantido para os mais experientes, esta é a Indonésia que se quer viver no seu estado mais puro.

Esta minha viagem à Indonésia ficou dividia entre as ilhas de Bali e Lombok. Após uns dias por Uluwatu e a aproveitar a boa vibe desta parte da ilha, fui até Kuta, Lombok. Surpreendeu-me a simpatia dos locais, de lhes ver na alma a boa vontade, a harmonia, o querer tratar bem os turistas tão preciosos nestes lugares remotos. É um claro sinal de prosperidade. Surgem os primeiros investimentos a uma escala maior, ainda que muito devagar, nota-se esta vontade de Lombok vingar enquanto destino de férias. Para já, Kuta ainda é uma vila para exploradores, aventureiros, pessoas que procurem por um refúgio da civilização ocidental. Contrasta aqui a Internet, curiosamente, em quase todos os espaços comerciais e de hospitalidade com a falta de água canalizada (diria que as prioridades estão trocadas).

O sossego em Kuta…

Tirando o zumbido constante das motas, consegui em Kuta descansar e desconectar do mundo. Aproveitei conhecer o espaço Mana onde experimentei yoga para surfistas. De longe, para mim, o lugar com mais mística e envolvência para se ficar. Tenho saudades de me sentar no Milk Expresso & Spa de capuccino na mão e a escrever no meu caderno de viagens, de olhos postos na passarela de lambretas rápidas e gente gira a rodopiar (volto a frisar isto, na Indonésia vê-se de facto pessoas mesmo giras, talvez por andarem todas descontraídas, mas é mesmo tudo giro). Quem lá for ao Milk Expresso, recomendo vivamente os pequenos-almoços sejam os ovos com abacate ou os batidos e sumos naturais, e depois aproveitar para fazer uma massagem ao estilo sueco, super relaxante, o melhor que fiz para descomplicar os músculos doridos do surf.

…e nas praias também

Mawi

Tirando duas artérias que atravessam Kuta, o resto da vila bem como os caminhos para as praias são de puro sossego. Aliás quem até aqui viaja sabe que vai atrás da falta de civilização como a conhecemos. Se por um lado temos Kuta de Bali que se assemelha ao nosso Algarve de agosto (no sentido que está cheio de turistas e só se vive para eles), Kuta de Lombok está a romper devagar naquela baía. E ainda bem que assim é. De mota exploram-se os caminhos até se descobrir as praias: Mawi, Are Guling, Tanjung Aan, Selong Belanak. O que têm em comum? Águas cristalinas quentes, areias macias de coral, águas de coco e poucas pessoas (a mais preenchida era Selong Belanak com aulas de surf, pequenos bares de praia em bamboo, cadeiras e chapéus de sol para se passar o dia). São na maioria praias por desbravar, simples, puras, onde os surfistas tentam a sorte naquele mar pouco conhecido. Apenas lamento os plásticos espalhados por toda a parte, que na verdade são um problema por toda a Indonésia.

O surf em Lombok

Gerupuk

Tal como em Bali, o surf não foi fácil para mim. Acho que ficou a faltar um guia local, um professor de surf para me orientar a explorar as praias certas. Tive vontade de entrar em Mawi, mas a onda impôs respeito. Vi os surfistas a remar muito, a tentar contornar a força das correntes do agueiro e isso comprometeu a minha vontade em experimentar. Felizmente fui abençoada em Gerupuk. Marcamos ponto de encontro as 6 da manhã na receção do hotel. Seguimos viagem num caminho de altos e baixos, pranchas penduradas, muita ansiedade por aquilo que nos esperava. À entrada de Gerupuk os locais aguardavam-nos com os barcos prontos para nos navegar até ao primeiro pico, Don-Don, que funciona tanto à esquerda como à direita e apenas quando o mar está maior. Atirei-me do barco, remei, remei, remei. Espreito por cima do ombro direito e vejo a onda a formar, a sorrir para mim. Vinha de facto na minha direção, deixei-me de coisas, e fiz-me à onda. Uau… Lisa, intensa, interminável (remar de volta para o pico foi a segunda parte do desafio, acho que nunca remei tanto quanto nestas férias). Não me irei esquecer da sensação daquela onda. De longe a melhor experiência de surf que já tive, parecia não acabar. Correu tão bem que no segundo dia repeti, mas mais adiante nesta baía de Gerupuk, no pico chamado Inside. Aqui forma uma direita consistente sob fundo de recife. Apanhei mais crowd, mas a simpatia dos locais e confesso, dos surfistas nipónicos (uma agradável surpresa dentro de água), fez tudo fluir. Fica a dica: vale sempre a pena acordar de madrugada. Ver nascer o dia e surfar ao mesmo tempo fez daquele lugar o meu templo do surf.

O lado trendy de Kuta

Há uma liberdade subjacente nestes lugares distantes no mundo (ou do mundo?). Talvez seja por isso que alguns europeus arrisquem deixar para trás a sociedade ocidental e aqui persistirem. Para quem um dia passar por Kuta, El Bazar e Krnk são dois restaurantes com muita boa onda e comida também. Pertencem ao mesmo proprietário e que tem consigo aquela história que tanto queremos ter. A pessoa que abandonou uma carreira internacional das nove às seis na Holanda para descobrir um futuro mais simples em Kuta. Quando lá cheguei ainda estava a sofrer de Bali Belly (não me livrei disso) e felizmente encontrei nestes lugares o conforto de pratos menos adocicados ou picantes e uma boa dose de kombucha para me ajudar a recuperar. O jantar começa cedo e a noite também, é que logo a seguir vamos ter festa num dos bares de praia (há uma festa por noite, todas as noites). Música ao vivo, venda de cogumelos com fartura, Bitangs, miúdas de chinelos e calções, surfistas arranhados pelo fundo coral. Neste misto de culturas conhecemos pessoas de todo o lado, num tempo parado do tempo propenso às conversas soltas pela noite.

Bali: viagem ao meu horizonte

Estou de volta, mas com a alma em Bali. Um lugar tão espiritual quanto pensei ser, emana uma energia tão positiva que só dá vontade de lá voltar, de lá ficar. Uma viagem fisicamente longa, uma viagem tão próxima ao meu horizonte.

Tudo é viagem, tudo é experiência. Sabia que ia custar passar tantas horas nos aviões, demasiadas escalas e tempo morto, mas faz parte da aventura. Assim que saí do avião, mergulhei nos aromas de Bali: em todo o lado o incenso arde. A pele ficou humedecida, o cabelo descontrolado, um cansaço feliz por poisar os pés em terra firme após 25h de viagem. Não vi grande paisagem à chega, a noite cerrada escondeu os primeiros encantos da ilha dos deuses. Mas fui abençoada ao acordar com o som da chuva tropical, pássaros exóticos, macacos saltitantes e uma piscina serena virada a nascente. Ali senti uma paz imensa, meditei, pratiquei yoga. Seguiram-se dias de procura de praias e ondas que se coadunassem com o meu nível.

O surf em Bali

Não é fácil surfar em Bali quando não se tem grande experiência. As ondas são perfeitas, mágicas, mas o fundo coral na maioria dos lugares impõe respeito à falta de destreza. Apanhei a primeira onda ao fim de dois dias em Padang Padang. Com a maré cheia, lá remei e fui. Senti as ondas mais lisas, mais demoradas a desenrolar. Deu-me tempo e oportunidade para cortar logo a onda e ir, quase eternamente no pensamento, a surfar. Ainda tenho em mim essa sensação. De frente para a costa, uma falésia de palmeiras, rocha vulcânica, comerciantes locais com saris e bonés para todos os gostos.

O lado boémio de Bali

Estive por Uluwatu. A meu ver, uma área cool e boémia. Resume-se a pessoas bonitas vindas de todo o mundo, a um povo a querer vingar na vida através do turismo, a refeições com muitos alimentos orgânicos, pratos adocicados como mie goreng ou gado-gado, cheia de vegetais, óleo de coco e amendoim. Batidos e sumos naturais em toda a parte, água de coco (quente, nunca fresca), mas que ainda assim sabe maravilhosamente. Ficam cravados no palato os pequenos-almoços no Bukit Café, aquele bagel com abacate e ovos mexidos escoltados pelo sumo de papaia ou as panquecas de banana divinais (cresce água na boca só de me recordar).

É tão fácil falar com estranhos em Bali. Dás por ti com uma disponibilidade incrível em querer conhecer pessoas, falar, trocar experiências, contemplar o por do sol de Bintang na mão… Surfistas giros, naquele registo hippie chic sofisticado, tatuagens, bronze dourado, cabelos loiros, livres pelo asfalto nas aceleras e pranchas penduradas. O ponto de encontro era sempre no Single Fin ou nas festas nas praias. É um lugar para celebrar a vida, livremente, descomprometidos.

A magia hindu

A religião será sempre um ponto de referência para a forma de vida de um povo. Diz muito sobre hábitos, valores, comportamentos e em Bali, isso não e diferente. Maioritariamente hindus, ao contrário do resto da Indonésia que é muçulmana, a diversidade deles começa inclusivamente no seu hinduísmo que difere do da Índia, e talvez a justificação seja a mistura religiosa que ali se sente. Tanto vemos biquinis reduzidos na praia como mulheres em burkinis. Há pelo meio budistas, católicos, protestantes e outros tantos que têm o seu deus. Mas em Bali tudo flui, naturalmente, como as densas chuvas tropicais. Indicado para retiros, solteiros, pessoas que procurem um sossego interior ou que queiram amor solto nos fins de tarde de engate. Aquilo do Comer, Amar e Orar é tão verdade e pode ser encontrado apenas em Bali (não precisamos de passar por outras paragens).

A inevitabilidade do por do sol

Vi o nascer do dia algumas vezes, andei sempre desorientada com o fuso horário, mas nada substitui o por do sol. Ali tudo funciona ao contrário, a condução por influencia, quiçá, britânica (foi durante algum tempo colónia deles) ou dos países mais próximos como a Austrália, a Lua fica cheia na horizontal, o sol põe-se quando aqui o dia nasce. Nesta equação, estar sentada a beira-mar em Bingin, a ver surfistas a rasgar ondas na vertical como nunca vi, onde o sol se deita devagarinho no pano de fundo, naquele calor húmido… faz-me viajar de volta e a equacionar como um lugar no mundo pode dizer tanto sobre a nossa personalidade.

#wavestories: o surf é a minha terapia

O surf é a minha terapia

O swell tem estado pequeno, ondas coca-colinha. As algas apareceram, dando um odor mais intenso ao mar. A luz so sol tem beijado a superfície. Ainda assim, vejo o fundo com clareza. O surf é a minha terapia.

O meu sorriso rasgado vem lá da alma. Eu tenho caído nas espumas, divertida, criança feliz. No mar, eu esqueço. Estou apenas ali presente com esta minha alegria infantil, se quiserem, mas vivo intensamente naquele lugar. Poucos vão entender este meu amor pelo profundo azul. Mas eu não receio em assumir nada do que penso ou sinto. Para se ser grande, sê Inteiro, já dizia Pessoa. Ali sou eu. Inteira, despreocupada, presente, feliz. Se eu pudesse, juro que seria sereia para nunca sair do mar. O único lugar no mundo que me faz colocar tudo em perspectiva, entender que a vida traz ondas, de todos os tamanhos e intensidades. Todas elas passageiras. Tanto aprendo a apanhar as ondas, como a cair com elas, a deixá-las passar, a ficar submersa, a ter de regressar à tona. Há dias em que as ondas não vão surgir. Há dias em que vão são tão grandes que não tenho coragem de ir. Seja como for, é a minha terapia. Tudo isto faz-me perceber que a vida é mesmo assim. Um dia vou estar bem, completa. Noutro dia, cabisbaixa, incerta. Um dia disponível a aceitar, noutro a lutar por aquilo que acredito. O que importa, é que em todos estes momentos, sou inteira. Nunca esquecer quem sou e para onde vou. Nunca me diminuir ou sentir inferior por não surfar (e viver) ao mesmo nível que os outros. Saber o meu valor, e aceitar que o mar, tal como a vida, traz e leva. Traz o que precisas, leva o que não interessa.

Por isso, quando a vida perde encanto ou balanço, eu atiro-me ao mar. Sei que vou estar presente naquele momento, e nada mais importa. Aprendi a viver assim e descobri a minha verdadeira essência. Já não sei estar de outra forma. Cheia de swell, cheia de emoções. Banhada em sal, conservo em mim essas boas energias ad eternum. Eu tento colocar em palavras a forma como me sinto no mar e o que me transmite. Só que não lhe fazem justiça. Talvez se entrares no mar, se me encontrares por lá, vais finalmente perceber este meu amor pelo mar e porque me faz tão bem.

Espero-te na meia maré.

Açores: liberdade em pleno oceano

Açores: Liberdade em Pleno Oceano by Mar de Sal

Pode soar a cliché, mas foi o que senti ao visitar os Açores. Liberdade em pleno oceano. Como estava por Lisboa, foi fácil comprar um voo de última hora para São Miguel. Gosto disto; de não planear muito e deixar-me ir. Acho que ajudou a sentir ainda mais esta liberdade de explorar as paisagens intactas e serenas em pleno oceano.

Não fui de mochila, mas fui minimalista a fazer a mala. Sendo dezembro, era importante levar o impermeável e biquíni velho (sim, tem de ser velho) para me enfiar nas águas quentes termais. Não fiquei hospedada em nenhum hotel, a Inês – a minha amiga desde sempre – vive nos Açores. Tive, por isso, direito a guia privada durante 4 dias por São Miguel. A grande vantagem de conhecer o destino com um local é que não te perdes e nem perdes tempo à procura dos lugares a visitar.

Aterrei de noite, nem vi a pista. Ao sair do aeroporto, caiu-me na memória Bali. Aquela humidade de estares no meio do oceano. O frio que se fazia sentir em Lisboa, ali se esvaneceu. Palmeiras e ar tropical, foram estas as primeiras vibrações. Rasguei um sorriso, cheio de vontade.

Roteiro de Chás e Paisagens Encobertas

Chá Gorreana Açores © Mar de Sal

De manhã, no primeiro dia, o céu estava demasiado encoberto. Espreitámos as câmeras de todos os pontos a visitar, e esta é uma dica indispensável, tens de o fazer. Se vês as câmaras da praia antes de ires surfar, faz o mesmo quando se trata de visitar a Lagoa das Sete Cidades e outros pontos imperdíveis. E, sendo uma ilha, temos de compreender que a volatilidade do tempo é enorme. Acho que tive várias estacões, várias vezes ao dia. Levar isto na boa porque quem comanda é a mãe natureza e siga lá aceitar o que ela nos quer dar. A Inês disse-me, não vais embora sem ter um vista deslumbrante sobre a Lagoa das Sete Cidades. Já lá voltamos.

Pegámos no carro e fomos visitar a Fábrica de Chá de Porto Formoso e a Gorreana. Pelo caminho, mar sempre à volta, estradas boas, estradas com vacas, campos verdejantes, paisagens incríveis, luxuosamente naturais. Por momentos, tive a estranha sensação de estar na Suíça, mas com mar. Digo isto pela perfeição da natureza, um enquadramento que nos que nos faz questionar Photoshop ou real? Maravilhosamente maravilhoso para não ser real.

Isto de viajar em tempos de pandemia até nos traz episódios caricatos, como não ser permitido visitar a fábrica de chá por questões de segurança, e sermos convidadas a sentar na sala a ver um vídeo que até está alojado no YouTube. Preferi sentar-me à mesa e experimentar o chá com biscoitos. Afinal, era esse o objetivo.

Seguimos ainda até à Lagoa de São Brás, no concelho de Ribeira Grande. Desci até à lagoa. Estive provavelmente ali sozinha durante uns vinte minutos. Minto. Acompanharam-me patos, vacas e outros animais que me deixaram confusa, mas chamemos-lhes de aves. Pedi-lhes colaboração nas selfies, ia levando uma bicada. Digamos que não são muito recetivos a estas tecnologias. O silêncio perdido nos sons do vento, do cintilar da água da lagoa, sobreposto ao mugir das vacas, deixou-me em estado meditativo sem culpa. Gosto deste simples prazer de sentir o mundo tal como ele é. Aquilo de apreciar o momento.

Dali seguimos até ao Miradouro de Santa Iria, com paragens provocadas pelas vacas. Se há algo que me intrigou nos Açores foi a falta de animais exóticos. Tinha esta ideia de que, por ser uma ilha vulcânica, rica em flora, a fauna seria no mínimo mais tropical. Mas não. Cavalos, vacas, cabritas e as tais aves. O vento entrou, desarrumou o cabelo e as fotografias sairam tremidas. Mas ainda bem que se meteu no meio do miradouro porque limpou a neblina, e lá me deixou vislumbrar o imperioso Atlântico a embater neste pedaço de terra decidido a erguer-se sobre o mar de sal.

Uau a tempo inteiro

Lagoa do Fogo © Mar de Sal

Confesso. Tudo para mim era momento uau. Isto de não ter expectativas em relação a algo faz-nos maravilhar facilmente. Talvez fizesse sentido aplicar este estado a mais momentos da vida. A Inês, sabendo que eu gosto de explorar, deixou-me caminhar até um riacho entre floresta verdejante e, de novo, silenciosa. Eu fico encantada com o silêncio. A natureza em pleno descanso, limitando-se apenas a ser. Não anotei o nome e falha-me agora a memória. Só que não há coincidências. Talvez a falta de lembrança serve para manter em segredo esta pequena aventura. De regresso ao carro, metemo-nos estrada fora para chegar lá cima ao miradouro da Lagoa do Fogo. Uau. Sim, de novo. Tive vontade de voar por ali, contornar a silhueta quieta da lagoa, indiferente ao mar que lhe tenta chegar. A fotografia ficou-me na memória.

Biquíni velho, mas não fui à Caldeira Velha

Parque Terra Nostra © Mar de Sal

A vantagem de ter uma amiga a viver nos Açores é que te dá dicas vitais: traz um biquíni velho. Dei-lhe ouvidos e ainda bem. Não por causa da Caldeira Velha, que por recomendação da minha Guia (olha o trocadilho Inês), não fui até lá. A aventura foi antes descobrir que o cheiro de enxofre é terrível. Isto nas Furnas. Cheira mesmo mal, mas disse-me a minha avó que foi onde provou um dos melhores cozidos à portuguesa. Troquei o cozido por um hamburger e batatas fritas. Isto de ser millennial

Estava ansiosa por chegar ao tão falado Parque Terra Nostra para finalmente dar uso ao biquíni velho. E com toda a razão. São 12,5 hectares de jardim botânico, com inúmeras árvores e plantas, que confesso, nunca ter visto. Gostei do passeio pelo parque, dos meus pedidos foto à influencer que tive o privilégio de tirar. Aliás, todo o parque é verdadeiramente instagramável, inclusivamente, a minha cara ao pisar a viscosidade na piscina de água quente termal. Primeiro, não se vê o fundo. Segundo, a água tem um aspeto de barro (daí o biquíni velho). Claro que me recusei de voltar a colocar os pés no fundo. Nestas coisas, até acho sorte contar apenas com 1,60m de existência. Não foi preciso muito esforço para perceber que o melhor era flutuar e nadar. Vem-me à memória as gargalhadas da Inês pelo meu ar de pânico o que é isto que estou a pisar?!. Na verdade, o que importa no meio daquilo tudo – que ainda não sei o que pisei – é que repus as minhas energias na água a 38º graus. Terapia. Logo a seguir, meti-me nas pequenas piscinas adjacentes com hidromassagem. Tão melhor e sem fundo, gelatina.

Baleias à vista, por do sol de perder a vista

Açores: Liberdade em Pleno Oceano by Mar de Sal

Fiquei sem ver as baleias no meu último dia. Queria muito. Infelizmente, o mar estava demasiado agitado e não houve embarcações a sair. A alternativa era continuar a explorar a ilha e dar de caras, sem querer, com o pôr do sol mais que tudo a que já tive direito nesta vida. Quem me segue no Instagram sabe que ando sempre à caça de pores-do-sol com a fatídica hashtag #foreverchasingsunsets. Fiquei ali, durante muito tempo, presente. A sentir aquela energia. Foi destino ali chegar porque quis o GPS mudar de rota e ainda bem. Só depois é que chegámos à Ferraria. O mar, como disse, não quis colaborar nesse dia. Estava demasiado bruto. Tive pena de não experimentar este banho de água quente, provocado pelos vapores vulcânicos, que se mistura com a água fria do mar. O truque é esperar pelas meias marés para sentir a temperatura certa. Quando muito vazia, dizem ser quente demais. A rebentação forte rompia pela pequena enseada, e havendo pouca luz, preferimos não arriscar.

Mas antes de me perder nisto tudo, tive que finalmente encontrar, a Lagoa das Setes Cidades. O tempo tramou todas as tentativas, mas esta era a última hipótese. Chovia. A câmara evidenciava o inevitável: céu muito encoberto. Arriscámos à mesma e pedimos à mãe natureza uma pequena colaboração. Acho que nos ouviu. Mais ou menos.

Atravessei o parque até ao Miradouro Grota do Inferno. Talvez a vantagem de viajar fora de época. Caminhei uns 15 minutos numa ampla estrada de pedrinhas cravadas até encontrar o trilho que leva ao acalmado miradouro. Tem, sem sobra de dúvida, a vista mais deslumbrante para a Lagoa das Sete Cidades. Já no trilho exalei um oh desanimado, pelo manto de neblina que cobria a vista. Dois segundos depois, uau, o vento limpou e consegui ter um momento sobre a paisagem. Voltou a tapar e eu voltei a exalar um oh, seguido de um uau porque o vento decidiu dar de novo uma limpeza ao nevoeiro. A natureza a brincar às escondidas… Felizmente, perdi a vista, vezes sem conta, e nos melhores fragmentos do tempo, tive o privilégio de vivenciar um dos lugares mais bonitos de sempre.

O que é bom é para se viver e comer também. Fechei a viagem com uma última paragem no Bar Caloura, onde me rendi às lapas açorianas, um delicioso camarão frito e uma experiência por peixes frescos grelhados. De fazer crescer água na boca. A cereja no topo do bolo, neste caso, a sobremesa envolvia duas palavras mágicas, chocolate e manteiga de amendoim.

Sim. Estou deslumbrada pelos Açores. E só conheci São Miguel. A próxima etapa é pegar mesmo a mochila e saltar entre as ilhas do arquipélago. Ver o nascer do sol no Pico e conhecer a ilha das Flores. Que assim seja, em breve. Tudo para nunca deixar de ser livre em pleno oceano. Palavra de sal, Mar de Sal.

Um obrigada especial à minha Inês por esta aventura.

#wavestories: E gosto tanto

Mar de Sal - Susana Gomes

Piso a areia ainda humedecida pela noite. Os grãos chegam-se a desenhar cinzentos pela praia fora. Vislumbro a espuma branca; com ela viaja a fragrância agridoce da maresia. Neste momento, composto de tudo e nadas, puxo o fato para cima – sinto aquele nervo miúdo a romper pela minha espinha como um ligeiro formigueiro que sobe e aquece a alma. É a antecipação de me entregar ao mar.

Entro em vagar. Pé ante pé. Levemente deixo-me ser beijada pela água cintilante da madrugada. São seis da manhã. A prancha segue ao meu lado. É uma sensação plena, onde me sinto completa. A comunhão de todos os meus melhores e piores sentimentos que ali fluem. Diluem. Por mar adentro.

Passo a primeira rebentação, prancha para o fundo do mar e com ela, o meu corpo trémulo de ansiedade, deixa-se afundar. Lava-me a alma. Ao vir ao de cima, sorrio. Um raio de sol tímido arrasta-se nas calmas pelo imenso azul. Chega-se a mim sem pudor, ilumina-me os bancos de areia por debaixo dos meus pés. Vejo-lhe os segredos.

Sempre que entro no mar, dispo-me de preconceitos. Onda após onda. Em queda livre.

E gosto tanto.

Como iniciar no surf ou surfskate? (parte 1)

Nunca é tarde para começar ou não há uma determinada idade para arriscar numa nova aventura. Iniciar no surf ou no surfskate é simplesmente uma questão de vontade. As dúvidas que todos temos ao começar; que te motivem a entrar nesta onda.

Se começarmos em criança a praticar estas modalidades, obviamente que não teremos tantas perguntas na vida adulta. Torna-se natural, parte da rotina. A meu ver, a grande vantagem de começar a surfar ou a andar de skate em criança, é pelo facto de ter um baixo centro de gravidade. O medo de cair é relativo. Não que eu seja particularmente alta, mas estar no topo da onda e decidir fazer o drop ou estar na berma do bowl e atirar-me com o Carver em vertical – dá medo. Sejamos realistas. Mas isso não me impediu de experimentar ou de querer levar esta vida ligada às boas ondas.

Como iniciar no surf? Quais os primeiros passos?

Saber nadar e gostar do mar

O surf pede, em primeiro lugar, algo muito simples – saber nadar, em especial no mar. Eu sempre fui peixe, andei natação desde pequena. Nadar e mergulhar no mar sempre me fez sentir em casa. É senso comum, mas é preciso perceber que o mar não é sempre como no verão, com ondas pequenas e divertidas. Tem correntes, tem mudanças de humor (marés) ao longo das horas, e pede o que vem a seguir…

Capacidade física e resistência

Depois, vamos à parte do teu nível de fitness. Mesmo para alguém ativo, o surf pede um bom pulmão e uma boa remada. Ainda hoje sinto que é um desafio, em particular, por passar meses longe do mar, logo torna-se complicado ter a resistência necessária. O truque é surfar sempre que possível, o mais tempo possível. Eu tento compensar com desporto fora de água e hoje já temos vários treinos disponíveis para ganhar ou manter capacidade física para o surf. Deixo aqui a referência às aulas do Surfset Portugal.

Aulas de surf sim

Se fizeste um check às duas primeiras etapas, inscrever-te numa escola de surf é o passo a seguir. Eu iniciei o surf com amigos. O que significou entrar em mar não adequado à minha experiência e com pranchas erradas. Eu sou apologista das aulas, como já partilhei antes. São a melhor forma de ganhar confiança e corrigir logo de início a postura a ter tanto na remada como na prancha.

Capacidade de investimento

O surf hoje já se está a tornar mais acessível, ainda assim é um desporto que pede capacidade investimento inicial tanto para a prancha, como para o fato de surf e outros acessórios que se tornam essenciais (poncho para trocar de roupa no estacionamento). Mas como dizia, a indústria do surf cresceu e facilmente encontramos alternativas mais acessíveis, importantes para estas primeiras compras. O meu conselho é este: há pranchas lindas, queremos as de performance, a de design minimalista, de um determinado shaper – mas para primeiras ondas, não compensa. A minha primeira prancha é uma NO LOGO, qualidade-preço recomendado.

Supera os teus bloqueios

Não menos importante, é parte psicológica. O que me reteve para iniciar mais cedo no surf? Primeiro, o medo. Depois, a vergonha. Medo de cair, de me magoar, de ser arrastada para o fundo do mar ou levada por correntes. Depois, a vergonha de não ter jeito para aquilo, de já começar tarde (aos 30), e de me meter no lineup com pros e eu ali, com a minha prancha iniciante a tentar dar o melhor. É tudo uma questão de atitude. Há que lembrar que todos tiveram de passar pelo processo de começar: primeiras espumas, primeiras paredes de ondas, primeiros drops. O que eu aprendi é que cair faz parte bem como ser enrolada pelas ondas.

Para uma atitude mais confiante no surf, eu visto esta lycra: faço isto porque me diverte e não importa o que os outros possam pensar sobre o meu estilo, porque o surf deixa-me com um sorriso na alma.

Como o meu primo me diz, “não é a água com açúcar que acalma, é a água com sal” (até porque a vida sem sal que nos enferruja). Espero que estas palavras te ajudem. Vou deixar na segunda parte do artigo as dicas para começares no surfskate.

Encontro-te no outside? 

#wavestories: quando estás meses sem ver o mar

Photo by Marina Maliutina on Unsplash

Para alguns é sacrifício não comer o que se gosta ou a ausência de contacto físico. Para outros, eu incluída, sacrifício é viver sem o mar. Estar meses sem ver o mar, sentir o mar. Quis a vida enviar-me para os Alpes há quase três anos. A coisa até corria relativamente bem, com uma média de viagens a Portugal a cada três meses, mas nada controlamos nesta vida, e aqui estou, presa às montanhas. Sabe-se lá até quando.

Podia fugir. Clandestinamente. Até me vejo nessa aventura. De atravessar as fronteiras à boleia escondida atrás de hoodie e mochila às costas. Mas sou responsável pela minha vida, pela saúde e consequentemente de todos com quem possa interagir. Confesso que me custa, muito mesmo, não saber o quando. Quando é que irei voltar para ti, meu mar.

Não há muito a fazer. Há que aguentar o que se pode, e quando já não der para mais, aguentar à mesma. A vida é mesmo assim.

A última vez que pus os pés no mar foi em Dezembro, na praia da Torre. Tive azar no Natal, levei com a tempestade, o mar esteve revolto nos dez dias que estive por casa e só tive coragem de entrar naquelas pequenas ondas da Torre. A ausência de mar tem aumentado substancialmente o meu medo. Não me sinto de todo confortável na água. Não confio na minha capacidade física para remar. Basta sentir uma rebentação mais forte que desisto de ali estar.

Nestes dias, longe, nestes dias em que aguento mesmo quando já não dá para mais, entro nesta dicotomia do medo e da insistência. Por que raios desisto quando tenho? Porque não insisto em aguentar mais um bocado pelos tempos em que não consigo? Penso saber a resposta. Nesses momentos em que considero que “isto é demasiado para mim“, em que sou assoberbada pela minha realidade, fico grata por ter pelo menos tentado. É que ninguém vive no futuro, só no momento presente. E naquele momento, jamais penso que não te irei ver, meu mar, durante meses a fio sem previsão de voltar. Por isso, o que faz sentido aqui e agora, não faz neste instante que já é o futuro. Vivemos de escolhas conscientes. Decisões que temos de acartar a responsabilidade. E a de sair do mar quando tenho a oportunidade de lá estar é sinal de que a esperança de voltar é sempre muito grande. Como aquilo de dar a vida por garantida.

Afinal nem contigo, meu mar, as coisas são simples assim.

#wavestories: ser apaixonada por surf e não ter grande jeito para a coisa

Não sei quando é nasceu esta paixão pelo surf. A verdade é que muito antes de me meter pelo mar adentro, já tinha um certo fascínio pelo desporto. Talvez pelos miúdos giros na praia de Carcavelos, talvez pelo lado descontraído que lhes desenhava a alma, talvez por (ainda) achar que surf é uma dança no mar. Atiro um último talvez, o de me ter apaixonado de verdade no momento em que deslizei pela primeira espuma.

Só que gostar não é suficiente para saber surfar. Temos de entrar em todo o tipo de mar, apanhar todo o tipo de ondas, experiementar pranchas, observar com intensidade onde a onda se forma e vai rebentar, para fazer perceber o que é isto de surfar. Daí as perguntas: já te sentes confortável o suficiente para dizeres que sabes surfar? Não. E achas que tens jeito para a coisa? Também não. Mas isso não invalida o facto de eu ser apaixonada pelo mar e querer continuamente melhorar.

Ter receio de algo é humano, mas ao não sair da nossa zona de conforto, não aprendemos, não evoluimos. E isto serve para qualquer área da nossa vida. No surf, por termos de lidar com o mar, há este medo inerente às ondas, às correntes que nos arrastam e ainda a falta de confiança que nos retrai. O que é natural, mas não nos ajuda a dizer adoro surfar com a convicção de que o sabemos fazer com mais ou menos jeito. Com tempo e persistência, isto vai lá.

Não nascemos todos Kelly Slater ou John John Florence. Mas se temos vontade, devemos sempre ir surfar quando a oportunidade bater à porta, ter aulas, ver vídeos — nossos e dos outros, ler sobre a área para nos sentirmos ao nível que achamos ter (juro que acho que surfo muito melhor do que os outros acham). Se alguém pelo caminho nos disser, não tens grande estilo ou jeito para o surf, é só conversa. Garanto que tudo na vida, que venha do coração, da vontade imensa de chegar longe, é talento inato. E isso, ninguém nos tira.

#positivevibes

Introdução ao hiking: o escape à falta de mar

Introdução ao hiking - Mar de Sal

Se antes passava a maioria dos meus dias no mar, agora tenho como cenário de fundo as montanhas. Confesso que fui até lá  mais vezes durante o inverno, também é mais longo, naturalmente, mas a verdade é que os Alpes são um lugar de passagem obrigatório. Eis a minha introdução ao hiking.

Para ser sincera, lá em cima, logo ali nos primeiros instantes com que me cruzo com a cordilheira alpina, torno-me humildemente pequena. É impossível não por os pensamentos em causa perante a mãe terra. E considero isto uma magia a ser vivida e aproveitada sempre que possível. É aqui que entra o hiking como um escape à falta de mar, de praia.

Sempre liguei o hiking ao passeio, atividade vá, para ser mais justa, dar uma volta a pé para os mais velhos. Mas a necessidade de estar perto da natureza fala mais alto. Sempre gostei de desbravar terra, tanto na secura de Montargil como no sudoeste alentejano, e no meio da verdejante paisagem helvética. O melhor então é deixar os preconceitos à parte e a partir à aventura.

Fronalpstock

A chegada a Fronsalpsptock

No ano passado, por esta altura, meti-me a caminho de Fronalpstock, no cantão de Schwyz. A ideia era subir de teleférico à volta de 1900 metros acima da altitude do mar para um primeiro pico. Dali até ao destino final seriam cerca de 3 horas de caminhada. Tivemos sorte, o tempo estava maravilhoso. Fui de calças de ganga e de ténis, erro de principiante, é preciso como tudo que envolva actividade física roupa indicada, em especial o calçado. Definitivamente há que ter botas de montanha.

Entre pedras, lama, escadarias, subidas e descidas estreitas, houve de tudo um pouco. Em certos momentos, o caminho era tão estreito, rochoso, que olhar para baixo era má opção mesmo não tendo medo das alturas. No entanto, confesso que a altitude e a caminhada mexeram com a minha respiração, o meu corpo não está habituado. Também, a maior parte das vezes, estive a suspirar pela inacreditável paisagem que pairava à minha volta o que esgotava mais rapidamente a minha capacidade pulmonar.

O lago lá em baixo, azul glaciar, o contraste com o céu escancarado de azul, as montanhas desenhadas em photoshop. Não há palavras.

A diversão nos Alpes

E depois, as descaradas vacas que atacavam o almoço dos caminhantes. Foi o acontecimento do dia. Aquela visão das vacas Milka, de sinos pendurados ao pescoço, a darem sinais do apetite pelo nosso almoço, sacaram-me uma gargalhada surreal. Até que, momentos mais tarde, quando já estávamos a terminar o intervalo de almoço – o ideal é levar mochila com comida leve, nutritiva, e água – uma grávida que ali passava decidiu aproximar-se de uma delas. Que fiquem tão incrédulos quanto eu, essa mesma vaca lambeu a barriga da grávida numa gentileza só vista. Resumindo, andámos de um pico da montanha para o outro e ainda tivemos tempo de socializar com animais, descobrir que o meu alemão é fluente com a altitude, que sou uma formiga neste mundo e muito grata por tudo que tenho direito a experimentar.

Uma vaca Milka nos Alpes

O hiking é desafiante porque nos obriga a caminhar por lugares de difícil acesso, a controlar a respiração, a falar menos e andar mais atentos com todos os sentidos. As pernas doem muito, alongamentos são essenciais, as descidas são muito mais difíceis do que as subidas, travar constantemente é um exercício exigente.

Depois disto tudo, fica a vontade de subir mais alto.

#wavestories: o porquê do surf na minha vida

#wavestories: o porquê do surf na minha vida

*episódio piloto*

A verdade é simples, eu comecei a surfar por causa de um desgosto de amor. Este foi o porquê do surf na minha vida.

Sempre o escrevi aqui no Mar de Sal, que a minha ligação a água não começou com o surf, mas antes com o ski na barragem de Montargil. Um dia, deixei de ter este prazer que me fazia esquecer o mundo e querer deslizar na água. Tive de o substituir pelo surf, depois de um final de verão amargo para experimentar o pela primeira vez.

A aula foi uma surpresa, que até hoje sou grata por a ter tido, na praia do Guincho. Tinha a alma lavada em tristeza quando me enfiaram na água. Uma prima teve a ideia de me oferecer a aula para me animar o espírito. Talvez, inconscientemente, tenha sempre deixado a impressão de que gostaria de surfar. Um dia.

Esse dia chegou. Estou e sou feliz por ter descoberto no surf um aliado às boas energias, aos bons pensamentos e à capacidade que o mar tem de nos fazer esquecer as amarguras. No mar não há espaço para lágrimas.

O ski deu-me preparação para o equilíbrio em cima da prancha, foi tão fácil perceber como fazer para me levantar e deixar-me ir. A parte complicada era ter força nos braços (ainda hoje luto por essa agilidade), com jeitinho lá o professor me empurrava nas espumas. Nada como um sorriso para desencantar oportunidades. A sensação foi incrível, não a consigo descrever. Juro que me faltam palavras. Tão incrível que até hoje resiste. Persiste.

Isto foi anos antes de levar o surf mais a sério. Guardei esse dia, e acabei por deixar passar demasiado tempo até regressar. O que me fez voltar a experimentar foi a lista de resoluções do ano novo. Meti na cabeça que o surf e o yoga iam fazer parte da minha vida. Sem mais demoras, nos primeiros dias do ano, inscrevi-me na Lufi Surf School, na Costa da Caparica e religiosamente lá me apresentava aos fins de semana. Era janeiro. Quando me meto nalguma aventura, dedico-me. E com o surf não ia ser diferente. Não quis saber do frio, do mar grande, dos perigos, do cansaço. do sal nos olhos. A única coisa que queria era surfar. E esquecer os desencantos da vida.

Faz agora à volta de quatro anos e meio que me meti nisto. Como consequência, a minha escrita passou também a ser sobre as minhas experiência de mar, de vida, sempre de mãos dadas.Tudo por causa de um desgosto de amor que no final de contas, só teve importância porque me fez surfar. Ah, vida sábia.

#wavestories o começo das histórias do mar

Quando comecei a escrever no Mar de Sal, a ideia era ter um lugar de inspiração. De mar, de surf, de yoga, de boa vida e sustentabilidade. Mas também um espaço para histórias de sal.

Mudar-me para a Suíça afastou-me do propósito da escrita. Sinto que por estar longe do mar, não serei autêntica a partilhar momentos. No entanto, sou feita de memórias e estas estão bem encravadas nas células que me fazem viver.

Não me comprometo com nada nem ninguém. Quero apenas começar a partilhar a série #wavestories. Momentos da vida de mar vividos por mim, por terceiros. Por paixão ao mar, por paixão à escrita. Porque sem nenhum dos dois a minha vida faz sentido e estou a precisar de lhe dar ondulação.

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