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DawnPatrol: o surf de madrugada

Ainda que as manhãs sejam de preguiça, ver o dia nascer no mar é uma bênção. Quem ainda não tem o surf enraizado na alma, perde o direito a ondas quase exclusivas ao acordar do dia. Descobre as vantagens do surf nas sessões de dawn patrol.

Não é a primeira vez que falo sobre fazer algum tipo de exercício logo pela manhã. No menu, incluo yoga, corrida ou o surf. Acredito que seja particularmente difícil para quem não aprecia sair da cama antes do nascer do sol, mas se pensarmos bem nos positivos desta ação, os resultados são mais felizes do que ficar na ronha.

O down patrol é o surf de manhã cedo, de madrugada. Apesar de a tradução literal ser patrulha da madrugada, aqueles que observam as condições do mar antes de qualquer raio de sol, para os fiéis ao surf significa vestir o fato de neoprene e ter direito a um swell só para si. Mas há mais razões para nos dedicarmos ao surf de manhã cedo:

  1. Menos crowd. Como nem todos são amantes de acordar de madrugada, a possibilidade de ter muitos surfistas na água é bastante reduzida.
  2. A serenidade da manhã. É um privilégio de poder desfrutar dos sonos da natureza enquanto tudo dorme. E apreciar as cores do céu que devagar mudam de cores frias para quentes.
  3. Ter tempo para nós próprios. Que sejamos egoístas antes de nos dedicarmos ao nosso dia. Ter tempo para nos mimar ou dar aquilo que mais apreciamos é essencial para a nossa vida.
  4. Para quem está sempre à espera do fim-de-semana, um surf de manhã cedo, a meio da semana faz toda a diferença. Além de evoluirmos mais facilmente, retiramos pressão às sessões de sábado e domingo (que nem sempre existem).
  5. Ficamos simplesmente mais felizes para o nosso dia. As endorfinas sobem, o sorriso e boa disposição ficam por perto.

Vamos a isso?

Como desbloquear num agueiro

Muito antes de viver o mar tatuei em mim a palavra flutua. Conservar à superfície, boiar, vogar sobre as ondas. Um estado de alma de serenidade, de simplesmente deixar-me levar pela corrente sem nada temer. Mas em dias de surf como o de hoje, a palavra flutua tem mais significado do que alguma vez considerei ter…

A praia de São João da Caparica é a minha praia na costa; aquela a que mais vou, inverno ou verão. Habituei-me aos picos, ao areal de extensão determinada entre pontões, encontro com os amigos de sempre debaixo dos chapéus de sol e pranchas de surf em espeto na areia. É também o mar que mais sustos ja me causou. Ali parti a cabeça e fui vencida pelo cansaço de lutar contra os agueiros.

Hoje não foi diferente.

O mar vestiu-se de azul escuro. De manhã bem cedo, ainda de pés na areia, o professor questionou: – o que estão a ver? Um agueiro, respondemos. – E onde vamos surfar?, retorquiu. No pico em frente ao banco de areia.

A maré ia encher ao longo da manhã, e a corrente do agueiro ia ajuda o carrossel: entrar pelo canal, apanhar a onda, sair e voltar a entrar pelo canal. Mas já se sabe, nada no surf é matemático. A primeira onda foi feliz. Senti ligeiramente a corrente que nos ia tirando do pico, mas fixada num ponto da terra, sabia onde me manter. Assim veio, sorridente, direita a mim. Livremente flutuei em cima da onda. Por estar de novo na areia, aguardei que o set passasse. Tentei chegar lá fora, mas ingenuamente deixei-me cansar. Remava sem sair do lugar em pleno agueiro. Agarrei-me à prancha e sentindo a areia debaixo dos meus pés, ergui-me e ali me mantive, com água pela cintura, a acalmar a respiração. Fôlego recuperado, recordando a teoria do carrossel, entrei novamente pelo canal.

Nessa altura, entre a primeira onda surfada e a minha insistência em regressar ao mar, tudo tinha mudado. Maré mais cheia. Corrente mais forte. Coloquei-me na prancha, leve e veloz, cheguei ao outside sem grande esforço. Mas é preciso mais astúcia e respeito pelo mar. O agueiro também se intensificou nestes instantes e só depois percebi que não vou sair dali com a mesma agilidade. Bloqueei. E com isso, a respiração torna-se pesada, desesperada, inexistente. Eu estava em pânico e congelei o pensamento, a capacidade de reação. Deixei o medo apoderar-se de mim.

“Senta-te na prancha e não entres em pânico!”, veio de lá a ordem. Eu estava em segurança, embora o cenário soasse a demasiado negro. As ondas não eram grandes, não me punham em aflição. Estava a flutuar sentada na prancha, um tanto ou quanto à deriva, mas sem perigo de me afogar naquele momento. Tinha a prancha, todos estavam calmos ao meu redor, dali haveria de sair. Bastava aguardar pela onda. E não bloquear. Assim foi. Sai do mar na onda que apanhei.

Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Sentei-me na areia a observar o mar. Vi-lhe todas as formas e maus feitios. Sobe e desce inconstante, caminho de cabras em forma líquida, intrigantemente atraente. Levantei-me, peguei na prancha e voltei a entrar. Em cheio no agueiro. Desta vez saio daqui sozinha. E saí.

 

O que aprendi com o mar de hoje?

  • O mar tem uma densidade e profundidade infinitamente misteriosa para o nosso conhecimento. É preciso aprender ler o mar, o melhor que pudermos, sem promessas de sempre saber como vamos sair.
  • Flutuar é a melhor estado para a mente. Se ficar em pânico, não há capacidade de análise e de resposta. E neste sentido, flutuar é a minha palavra para mente calma.
  • Se a nossa velocidade para chegar ao outside for demasiado veloz, algo não está certo. De novo, certificar de que lemos bem o mar antes de entrar.
  • Ainda preciso de mais preparação física para o mar. É sempre tão exigente…
  • Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Como tornar o surf mais apetecível no inverno

O sol está cada vez mais tímido, os dias de chuva e de frio estão-se a intensificar. E agora, coragem para o surf, quem tem? Dicas simples para manter o corpo e alma quente enquanto se desfruta do mar.

Nasci entre a neve dos Alpes; o frio corre-me nas veias desde a infância, mas isso não significa que gosto de ir para o mar com temperaturas baixas. Apenas me tornou mais tolerante em relação ao frio. E para aqueles que me perguntam sempre “mas vais para o surf neste frio?”, eu respondo com muita assertividade, “vou”. Acontece que já não é o primeiro outono/inverno que passo no mar, o que me tem deixado mais preparada em cada temporada. Aqui ficam os meus truques para tornar o surf mais suportável nos meses cinzentos tanto dentro como fora de água.

Chá quente

O chá é um dos maiores aliados do frio. Levar um termo que mantenha a temperatura do chá quente, durante duas horas pelo menos, é meio caminho andado para aquecer o corpo. Por regra, escolho chás com gengibre, cardomomo ou pimenta preta para provocar uma onda de calor de dentro para fora

Vestir como um viking

Imprescindível levar gorro, cachecol e luvas até em certos. O corpo deve ser rapidamente aquecido e estes detalhes fazem a diferença. Uma boa forma de saber como agasalhar após o surf é pensar como se vestia um viking: coberto de pelo de animal nos ombros e pescoço, uma faixa de pele a envolver a zona lombar (os rins regulam a temperatura no corpo), e botas bem quentes. Tapar as extremidades do corpo e as partes mais vulneráveis ao frio.

Saltar à corda

Para quem faz surf no inverno é primordial aquecer o corpo e rapidamente. Nada melhor do que um exercício físico intenso como o salto à corda. Durante dois minutos, salta. Aumenta a circulação, o ritmo cardíaco e o corpo aquece, tornando até menos doloroso despir para vestir o fato de surf.

Sempre em movimento

Dentro de água, quando o swell é menos intenso, mantém-te à mesma em movimento. Treina a remada, procura o pico das ondas. Não te deixes ficar na prancha à espera que a onda vá ao teu encontro. Precisamos de manter o corpo quente, e para isso, há que ter o coração em bom ritmo, sempre a pulsar com alguma intensidade.

Neoprene de qualidade

Por mais óbvio que possa parecer, de facto, devemos apostar num bom fato, selado e bem temperado (ou seja, pelo menos com uma espessura 4/3). Além disso, acrescenta as botas de neoprene. O ideal é aproveitar coleções anteriores e a época de saldos para comprar um fato de qualidade com preços mais simpáticos. Garantes assim uma boa temperatura no corpo enquanto estás no mar gelado, vale a pena o investimento.

SAL: o festival de cinema para os amantes do mar

Confesso que no ano passado fui a correr ao são jorge para comprar bilhetes para o View From a Blue Moon com John john florence. Este ano vou de novo a correr para outras sessões de cinema cheias de mar. SAL | SURF at lisbon film fest, no cinema São Jorge, Lisboa, de 17 a 20 de novembro.

Quem não gosta de uma boa sessão de cinema? E se for à volta do tema do surf? Eu ponho vários “likes” a isto. O SAL é o primeiro Festival de Cinema de Surf por terras lusas e acontece este ano pela quinta vez, de 17 a 20 de novembro. O objetivo é promover o potencial da costa portuguesa e criar laços duradouros entre a cultura, o turismo e o desporto numa perspetiva internacional.

Além das sessões de filmes de surf no SAL temos também música, exposições de pintura, fotografia e debates sobre assuntos sobre o mar, sustentabilidade e ambiente. É um fim de semana em cheio para nos preencher a agenda. Relativamente aos filmes, tenho uns quantos na calha, estou certa que quero ver quase tudo. Deixo aqui três escolhas.

Red Charges. O SAL passa em primeira mão e em pareceria com a Mercedes-AMG, as ondas gigantes da Nazaré. Deve ser tão magnético ver a coragem dos surfistas de ondas gigantes. Estou ansiosa para ver!

We Rise Together. Uma curta-metragem com Eveline Van Brande, Taylor Nelson e Anna Ehrgott durante uma aventura à vela pelo sul da Califórnia, que foge ao sex-appeal comercial do surf feminino para mostrar uma versão genuína disto que é uma vida de paixão e de surf.

Deep Islands. Outra curta-metragem que não quero perder. Celebra a simbiose entre o microcosmos e a beleza do surf num cenário paradisíaco nas ilhas do Oceano Índico, onde a fragilidade do fundo de coral é enaltecido e chama a atenção para a necessidade da sua preservação.

Deixo apenas estes exemplos para não ficarem perdidos como eu na escolha. Para mim está a ser tão difícil quanto saber que onda surfar… Vejam o cartaz e deixem-se levar. Encontram mais informações no facebook do SAL. Temos encontro marcado?

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Fonte: SAL | Surf At Lisbon Surf Film Fest

 

 

 

 

3 razões porque deves apostar no surf em 2017

Provavelmente a maioria não tem o surf como prioridade na lista de resoluções de 2017, mas gostava que me acompanhassem até ao fim. Os benefícios do surf a longo prazo deixam-nos tão mais felizes…

Quando me propus a criar este espaço de partilha de coisas sobre a vida ligada ao mar, tive como propósito incentivar qualquer pessoa a descobrir o que as faz feliz. A mim, indubitavelmente, é o mar. A sincronicidade dos benefícios psíquicos e físicos é mais do que evidente. Não queria estar longe das ondas, da areia, da maresia, e para isso, precisava de encontrar algo que me fizesse estar mais tempo no palco principal da minha vida. É aqui que entra o surf. Ao longo destes últimos tempos em que tenho dedicado com mais seriedade ao surf, descobri que tive muito mais a ganhar do que simplesmente apanhar ondas.

Benefícios Físicos: é um desporto muito completo. Nunca tive costas, ombros e braços definidos. Com tempo, a musculatura foi-se desenvolvendo, tenho uma postura mais direita, além de me poupar idas ao ginásio. O trabalho cardiovascular é intenso, queimamos muitas calorias, e trabalhamos os músculos todos do corpo – é que o equilíbrio na prancha pede, além de braços, força de core e pernas.

Benefícios Psicológicos: no outside oiço muitas vezes, “está tudo na tua cabeça”. E está. Quanta vez, por pensar demais, erro na escolha da onda, na postura que coloco, deixo peso a mais a frente, peso a mais atrás. Quando liberto a mente, quando não coloco pressão no pensamento, tudo flui com naturalidade. Depois, ao estar somente no mar, sentada na prancha, não tenho tempo para pensar nos afazeres do dia-a-dia, dos problemas que nos assolam. Ali, aqui e agora, sou livre. Dos poucos lugares onde a mente limpa sem grande esforço e tudo se relativiza.

Benefícios Emocionais: eu sei, estou sempre a sorrir, mas deviam-me ver depois de apanhar uma onda. Um sorriso rasgado de orelha a orelha. Aquele conceito da adrenalina dos corredores, no surf também sentimos. Libertamos endorfina, estamos mais leves, mais felizes. Além disso, a sensação de superar o meu medo faz-me sentir capaz de conquistar o mundo.

Estamos de portas abertas para 2017. O que quer que tenha sido este ano, estamos sempre a tempo de ser felizes. Com o surf à mistura, ainda melhor.

O que o surf já me ensinou

Tinha 25 anos quando me atrevi a experimentar pela primeira vez o surf. Cinco anos depois, decidi que ia ser algo importante na minha vida. E assim se cumpre esta promessa, religiosamente, há quase três anos. As lições de vida que o surf já me deu.

Quando decidi levar isto do surf a sério – dar por mim a comprar prancha e passar a ver todas as manhãs as previsões do mar – tinha este desporto apenas como uma nova diversão na minha vida. Só que tornou-se em algo muito mais importante e intenso do que isso. Entre aventuras mais assustadoras, que incluem cabeça partida e ser arrastada em correntes, a soma das boas partes é muito maior. Eis as lições de vida que o surf já me deu.

#Paciência

As horas a fio à espera da onda que nem sempre vem ou não vem como queremos. Uma chatice pegada, pergunto-me inúmeras vezes porque estou ali, não tinha mais nada de interessante para fazer. Mas acaba por me conquistar a paciência, a serenidade de saber esperar pela melhor onda que ainda está por vir. E não é assim mesmo a vida?

#Coragem

Seja para mar grande, mar pequeno, ondas gordas, ondas tesas, o mar pede coragem. Nunca sabemos que correntes passam por baixo, que mistério nos reserva o mar. Encarar com a humildade de que é o nosso momento de comunhão com a natureza e que, sejam quais forem as condições, pede-nos a coragem de saber entrar e saber navegar.

#Esperança

É só mais uma onda na esperança vã de sermos francamente melhores nessa, mais felizes quiçá. Esperamos sempre que aquela última onda nos traga ao de cima o nosso melhor.

#Amizade

Quem não anda no mundo do surf, não faz ideia da facilidade que existe em criar uma comunidade, uma tribo, um círculo de amigos. Hoje é raro o dia em que entre sozinha no mar, há sempre alguém por perto que quer tanto quanto eu apanhar ondas nesta simplicidade que é a vida.

#Gratidão

Por tudo o que o surf me tem ensinado e dado, eu estou e sou grata. Há dias em que tudo nos corre bem, outros nem por isso. Mas o facto de poder entrar no mar, de me divertir, e de estar em comunhão com a mãe natureza é mais do que razão para me sentir grata e arrancar de mim um sorriso genuíno.

O que faz de John John Florence o melhor surfista do mundo

John John Florence dispensa apresentações. É o atual campeão mundial de surf e também alguém que admiro muito pela atitude que tem perante a vida.

Ainda no rescaldo do campeonato MEO Rip Curl Pro Portugal sinto que também quero deixar aqui registado o momento histórico que nós portugueses pudemos assistir: John John Florence sagrou-se pela primeira vez na vida campeão mundial de surf cá em Portugal (e eu tive a oportunidade de o ver a surfar ao vivo, que lenda!).

Mas não é sobre isso que quero falar, nem da sua exímia capacidade técnica nas manobras de surf. Já todos percebemos que o puto é mesmo bom no que faz. Eu quero antes evidenciar – na minha humilde opinião – a sua atitude perante a vida e como a força da mente nos ajuda a levar onde queremos ir.

É totalmente focado: “toda a minha vida eu trabalhei para isto“, disse na terça-feira, após ter ganho o campeonato em Peniche. Não se trata apenas de levar o título de campeão, salienta-se aqui a constante capacidade de se manter focado no objetivo que sempre quis alcançar. E assim foi. Se desde criança quis ser campeão mundial, aos 24 anos conseguiu. Há que perceber que a vida nem sempre acontece no ritmo que queremos, tudo leva o seu tempo.

É grato: “acordo todos os dias a pensar na sorte que tenho”. Esqueçam a arrogância. Quem sabe agradecer, vê a vida a fluir. Que o diga John John Florence. Eu também o digo por mim. Ao ser grata pelas oportunidades que tenho, sinto-me mais capaz para fazer seja o que for, e consequentemente, mais feliz.

Dá o seu melhor. Se sabe que vai estar fora durante para competir, vive aqueles momentos como únicos, canalizando ali toda a sua energia e tempo. É um compromisso de entrega irrepreensível. É assim que se deve viver. Dar o nosso melhor, sempre, em tudo o que fazemos.

Relativiza as situações. Nem sempre conseguiu boas classificações, o que não o fez desanimar ou desistir. Sabe que está em competição, mas acima de tudo pensa que tem de se divertir. E nada melhor para o tornar mais relaxado em relação à pressão dos campeonatos. Quando relativizamos as situações mais adversas na nossa vida, conseguimos aliviar a pressão.

Medita. Eu estava na praia de Super Tubos sentada perto do corredor de passagem dos surfistas e lá vinham os seguranças a rodear o menino prodígio. Estava tudo histérico com a sua presença, só que ele vai calmo. Parou diante do mar durante uns momentos e ali ficou tranquilo, a respirar calmamente. Estava a meditar.

Sempre que me encontro diante de uma situação de stress, recolho-me às técnicas de respiração que ajuda a sossegar a mente e isso ajuda-me a pensar com clareza. Acredito que John John Florence deva ter recorrido à técnica da visualização enquanto meditava. É que se se viu a vencer a tudo, ele conseguiu.

Direitos de imagem: Ture Lillegraven in Outside

5 razões porque não estamos a evoluir no surf

Sentes que não estás a evoluir no surf? Já paraste para fazer uma análise à tua performance? Estamos sempre a tempo de melhorar.

A arte do surf é muito exigente. Parece tão simples quando vemos uma Leah Dawson ou o Dave Rastovich em uníssono com as ondas do mar, a fluirem entre cada ondulação, nesta dança sobre as ondas. Mas não é. Exige uma preparação física elevada, saber interpretar o mar, conseguir ultrapassar as barreiras psicológicas. Portanto, evoluir no surf requer dedicação e igualmente compreensão da nossa parte. Temos de conseguir ver o porquê de não saber cortar a onda ainda e perceber que há sempre uma explicação para tal.

Estamos a usar a prancha errada

Nos primeiros tempos faz sentido usar as pranchas de espuma, depois passamos para uma de epoxy. Larga, volumosa, estável. São ideais para aprender o stand-up.  Chega a uma altura em que nos sentimos confortáveis e começas a ter sede para mais. Temos que nos adaptar à nossa evolução, se estamos com vontade para mais, mudamos de prancha. Mas calma na escolha. Não vale a pena comprar uma prancha nova. Até fazer aéreos, há que treinar muito em pranchas mais estáveis.

Não temos preparação física

Para quem entra no mar, sabe o quão exigente é para a nossa capacidade física. Não podemos passar a semana sentados ao computador, sem praticar qualquer tipo de actividade física e esperar que no próximo sábado seja um dia inteiro dedicado ao surf. Se queremos evoluir, temos de apanhar muitas ondas, treinar muito no mar, mas se estas nos escapam pela falta de resistência ou força na remada, significa que não temos a preparação física suficiente e é necessário recorrer a atividades físicas extras.

Não nos esforçamos o suficiente

As respostas residem em nós. Sabemos que surfar é difícil, mas quando queremos, conseguimos. A questão é que temos uma tendência para dar demasiadas desculpas para não evoluir. A prancha não é boa. O mar está grande. O mar está pequeno. Está a chover. Não está sol. Hoje dói-me o braço, o ombro, que seja. Parar de inventar as desculpas e ir. Nunca tentar de deixar de tentar.

Não nos vemos a surfar

Não temos um espelho quando estamos a surfar. Não é como no ginásio que conseguimos ver a nossa postura. Por isso, fazer aulas de surf com o professor a filmar e a corrigir o que fazemos de errado dá-nos a dimensão da realidade. Vemos como nos portamos em cima da prancha e o que precisamos de melhorar.

Não vamos com frequência

Temos de nos meter no mar sempre que possível, ser consistentes e insistentes. É muito difícil evoluir quando vamos “de vez em quando”. Assim que criarmos um ritmo de surfadas, exploramos muito mais a onda, tentarmos muito mais vezes, descobrimos que se olharmos para a direção para onde queremos ir e não para baixo, o surf acontece (e a vida também). A evolução torna-se natural.

Surf Style Training: treinar como um surfista

Como é que me vou aguentar na remada? O mar está grande. Será que tenho força de pernas, core e costas para vencer a corrente? Ajuda ao corpo saber surfar em qualquer tipo de mar. Aliás, continua a ser o treino mais eficaz. Mas há dias em que não posso ir surfar e estar parada faz-me perder ritmo. Por sorte descubro pessoas como a Elise Carver, criadora do programa de treino Surf Style Training, para me manter em forma.

A Elise é uma miúda ligada ao desporto. Começou por fazer ginástica em criança e aos 12 decidiu apostar na escalada, o que a ajudou a construir os exercícios necessários para desenvolver core, braços e costas. Quando se mudou para a Surf Coast, na Austrália, apercebeu-se – sim, também começou a surfar – que o surf exige muita capacidade física e por essa razão, fazia sentido criar um programa de treino inspirado no surf para melhorar a qualidade de vida.

Mas como podemos treinar com a Elise? Se forem como eu que não ando num ginásio, basta subscrever no site Surf Style Training, arranjar um tapete (pesos ou garrafas de água de 1,5L e colocar na mente, os 5 fundamentos que a Elise trabalha nos seus treinos, Core, Flexibilidade, Equilíbrio, Resistência e Agilidade.

Elise explica que não nos quer fazer saltar à corda vezes sem conta. Quer antes estabelecer um treino sustentado à nossa capacidade. É focado no core através do yoga, exercícios de equilíbrio e pliométricos, com exercícios de correção postural, alongamentos e ainda recuperação.

Vamos ao treino? Já sabem, estamos na meta dos #100diasverão.

Como superar o medo ao mar

Ainda no fim-de-semana estávamos no mar. Três aprendizes com uma imensa vontade em apenas apanhar ondas. E ali estávamos a observar o comportamento da onda, onde forma, onde quebra e às tantas chega o set e cai sobre nós. Às vezes temos tempo para mergulhar, fazer o duck dive, outras só da tempo para nos afastar da prancha e mergulhar, outras ainda, não sabemos o que fazer e lá somos atropelados pela massa de água, embrulhados durante uns metros sem saber quando voltamos a respirar. Daí o ar de pânico perante o set. Nunca sabemos o que nos vai acontecer nos instantes a seguir (mas sabemos na vida o instante a seguir?).

Pergunto-me “vou-me aguentar debaixo de água? Isto vai parar de me enrolar?”. O medo é latente. Entre aquele set, que nos fez deambular perdidos no mar, salta-nos a pergunta – mas vocês têm medo de quê? De morrer? Deu-me para sorrir meio nervosa, se calhar até tenho, pensei. Uma de nós respondeu: não é de morrer, é de sofrer. Fiquei a remoer a questão do medo. O medo do mar. O medo ao mar.

E o que tememos ali no mar, o não voltar à superfície? O não voltar a respirar? Pensa-se sempre nessa possibilidade. É inevitável. Só que este medo faz-nos respeitar os nossos limites; faz-nos respeitar o mar. Queremos sempre superar. No fundo – que é exatamente onde não queremos ficar – aprendemos a voltar à tona, a aguentar debaixo de água, a controlar a mente para nos manter calmos. O mais engraçado é saber que neste mesmo lugar, onde sentimos este pânico de sofrer, descobrimos uma emoção tão superior a nós, tão genuína: a vontade de viver, de respirar. Por maiores que sejam os receios na nossa vida, ali, entre ondas que tombam rápidas entre si, tudo se esquece excepto esta simples vontade de respirar à superfície.

Este medo ao mar faz-nos bem. Tornamo-nos mais conscientes, mais atentos à vida. Há que usar o medo em nosso favor para nos ajudar a crescer, a evoluir e deixar que nos revele quão capazes somos.

Para quem ainda não está convencido, deixo sugestões para ajudar a superar este medo, em especial para quem anda a aprender a surfar.

1. Aprende a suster a respiração com calma. Tenta fazer piscinas debaixo de água.

2. Aprende a ler o mar. As correntes, as ondas, as marés. Quanto mais souberes, mais fácil será antecipares os teus movimentos no surf.

3. Evita mar maior. Experimenta surfar em dias de mar mesmo pequeno. Conquista confiança, onda a onda.

4. Vai surfar sempre com amigos, e de preferência quem perceba o teu medo e te ajude a ganhar confiança.

5. Interpreta o teu medo. É apenas receio, nervos miudinhos ou um pânico intenso? Se for a última opção, enquanto não superares o receio, não vás surfar.

6. Estás com medo? Sorri e lembra-te que o surf é para te divertires.