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Desabafo de uma surfista em transição

As correntes levam a água salgada a percorrer milhas infinitas. Eu tenho a certeza que vai e volta, não perece no mesmo lugar. Também acredito que esta magia natural corre nas minhas veias. Vou de um lado para o outro, retorno, mas nunca fico demasiado tempo no mesmo lugar. Pela (novamente) primeira vez, em 25 anos, a vida afastou-me do mar. Estou de passagem numa nova experiência e essa decisão custou-me o surf, a praia, a vida boémia ligada ao sal.

Mas alma de surfista será sempre de surfista, esteja onde estiver. Rodeada de montanhas, neve, julho chuvoso, serei surfista. De pele esbranquiçada, cabelo escurecido, serei surfista. Mal humorada pela ausência de sol, apática pelo inaudível som tranquilizante do swell, serei surfista porque corre em mim água salgada nas veias.

Hoje mergulho no rio frio. Recorda-me as vezes que tive o privilégio de ter o mar aos meus pés. E vou ser tão mais grata pela oportunidade de voltar a surfar, de voltar à praia, ao meu lugar. Até lá, sigo e aprendo a viver sem swell.

Como bate forte a saudade de temperar a alma nas ondas…

Como sobre(viver) sem mar

Há uma expressão em inglês que define o meu estado físico neste momento: landlock, presa em terra. Viver com o mar a espreitar no fundo da rua era dado adquirido. Estivesse sol ou chuva, inverno ou verão, ali permanecia o meu mar. Acontece que o malandro tem correntes e desta vez arrastou-me para longe dele. E o surf, perguntam-me. Não sei, mas estou a encontrar forma de sobreviver até o reencontrar.

A maioria deve estar a desfrutar do bom verão português, brindada pela maravilhosa costa que temos, praias por desbravar, peles bronzeadas, pranchas de surf espalhadas, carros repletos de areia e apetrechos de quem passa o dia virado a sol. Onde estou, não tenho nada disso. Confesso que é castigo não ver a imensidão azul no nosso raio de visão, e honestamente, para quem é surfista, custa a triplicar vezes infinito. Mas, como em tudo na vida, temos de nos centrar no lado certo da equação, como quem diz, encontrar uma forma de manter a vida de mar por perto.

Espírito de surf por toda a casa

Fotografias a posters, mapas, adereços, decoração em tons de mar, em casa tudo tem de transpirar espírito de praia. Também vale usar incenso que tenha na embalagem algo como “ocean breeze”. A próxima estratégia é encontrar uma prancha de surf faz de conta para pendurar na parede (como não vou usar, pode ser em cartolina). Se mantivermos o espírito do surf um pouco por toda a parte, disfarça a distância a que estamos do mar.

Vida de surfista continua online

Sites de surf? Subscrevo a todos. Tenho o email cheio de swell, imparáveis notificações nas redes sociais sobre surf, vídeos no youtube de aulas, tutoriais, inspirações… Tudo vale para viajar mentalmente até ao mar. Embora possa soar a tortura na verdade serve para me manter ligada a este estilo de vida.

O asfalto nunca acaba

As ondas nem sempre temos. O asfalto nunca acaba e, por isso, o melhor é ter um skate. Em termos de movimento e de sensação de liberdade, o skate engana o cérebro. É o meu faz de conta que estou em cima da onda a ripar.

Ter foco noutras atividades físicas

Mais fácil é encontrar um lugar para praticar yoga e estrada para correr. Passeios de bicicleta pelo campo também me ajudam a abstrair. O meu foco é encontrar atividades físicas que me mantenham em forma para quando for altura de regressar ao mar, a surfada não seja tão exigente fisicamente.

Encontrar amigos do mar

Se há algo fácil de descobrir – acho que há uma empatia instantânea entre a comunidade surfista – é um amante do mar. Aqui presa em terra já encontrei vários surfistas e estar à conversa com eles ajuda a desligar a ausência das ondas; é que o tema passa a ser snowboard.

 

Sessão de surf a solo

Ao início, quando nos metemos nisto do surf, é complicado ter companhia e acabamos muitas vezes por ter direito a sessões de surf a solo. Isto porque não saímos das espumas, demoramos a chegar ao outside, caímos muitas vezes e quem já sabe apanhar ondas é exatamente isso que vai fazer. Mas podemos sempre aprender a desfrutar das nossas idas solitárias ao mar.

Entrar no mar sozinha assusta, confesso. Há que chegar à praia e perceber o estado do mar, se há correntes e as dúvidas que tiver, não tenho ninguém para as debater. Depois, quando entro no mar fico preocupada com a minha figura, os outros surfistas vão perceber que sou principiante, as quedas podem ter um tom mais ridículo e sabe-se lá se não me magoo no meio disto tudo. Portanto, surf e solidão até aqui, parecem não combinar. Só que a experiência da vida, seja ela onde e como for, torna-nos mais sólidos e ensina-nos a superar os medos e a falta de confiança. O que aqui escrevo hoje não é uma fórmula mágica, mas é a minha estratégia para aproveitar melhor estas sessões de surf sem companhia.

Surfar na praia do costume

Quando decido ir sozinha, vou para uma praia que conheço. Apanhar ondas numa praia que nos é familiar, até mesmo com o crowd que possa lá estar, faz-nos ter mais confiança para entrar.

Primeiro a segurança

Agueiros, correntes, simplesmente ficar em perigo não é surf. Devemos ir até onde temos capacidade mental e física. Já sabemos que o surf demora tempo para se aprender, por isso, uma onda de cada vez. E por falar em segurança, nada de deixar as roupas, carteiras, mochilas, sacos, o que for, à vista no carro.

Concentrar no nosso surf

Porque, sinceramente, é o que todos fazem. Ninguém está a avaliar o que fazemos, se caímos ou se temos falta de jeito. O surf é um desporto tão individualista que na verdade só nos faz preocupar com a próxima onda que vamos apanhar, por isso, a nossa figura nada interessa aos restantes surfistas.

Ter bom espírito

Significa ter sentido comunitário, cumprimentar os outros surfistas (aqui há vantagem se fores miúda). Tentar manter o civismo dentro de água, evitar de roubar a onda a alguém e caso aconteça por acidente, pedir desculpa é uma atitude bagus. E faz com que a nossa surfada se torne mais fácil, fluida.

Cair faz parte

Já não me preocupo mais com isso, cair é natural, até o Kelly Slater cai da prancha. Não faz de mim menos capaz, aliás é com as quedas que vamos aprendendo. Nada de sentir vergonha ou desmotivar. A atitude certa é voltar a pegar na prancha e tentar, só mais uma vez. É assim que se constrói a confiança.

Recompensa após o surf

Quando termino a minha surfada solitária, gosto de me presentear. Nada como uma mega taça de açaí na Padaria da Praia, em São João da Caparica para me fazer sentir meritória do meu esforço e dedicação.

Yoga para Surfistas no Mana Yoga & Studio

O Mana Yoga & Studio foi uma experiência inesquecível. Perdido pelas simples ruas de Kuta, Lombok, ali somos envolvidos pela vegetação local, as enormes palmeiras, as plantas exóticas e os incalculáveis animais desde aranhas a geckos (para nós, assemelham-se às osgas), que ecoam pelo pequeno resort fora. Com aulas diárias, decidi experimentar Yoga para Surfistas.

Ali deitados sob um enorme tecto de palha, ventoinhas gigantes e o burburinho da natureza, a aula iniciou-se em silêncio. Donald Hill é um tipo esguio, sereno, juro que não lhe senti os passos (mantive-me de olhos fechados até iniciar a aula), com um timbre forte, mas calmo. A aula foi dada em inglês, valeu-me saber já de antemão os nomes dos asanas. Começamos com o acalmar da mente através do pranayama completo – encher a barriga e fazer o ar ondular pelas costelas e peito, e na inspiração o sentido inverso – para depois dar início à prática de yoga para surfistas. A aula foi pensada numa sequência lógica de quem passa tempo na prancha, a remar no mar, obrigando costas, ombros, pernas a trabalhar mais do que o normal. Retiro da aula as posturas que mais sentido fizeram ao meu corpo cansado do surf.

Matsyásana ou a postura do peixe

Deitados no tapete esta postura exige a elevação do tórax fazendo com que o alto da cabeça fique apoiada no chão. Mantemos a respiração abdominal até sentir os primeiros sinais de desconforto. Esta postura é especialmente benéfica para a tiroide por causar irrigação sanguínea na área, mas o que mais apreciei na postura é o facto de contrair os músculos da nuca e alongar os das costas. De acordo com o professor Hermógenes, este asana desenvolve a musculatura torácica e da coluna.

Uttana Shishosana ou Postura do Cão Estendido

Nesta postura alongamos a espinha bem como os ombros, e consequentemente, faz com que se desenvolva uma coluna mais flexível. Além disso, é um bom reforço muscular para os braços, ancas e parte superior da coluna. Ou seja, aliviamos e trabalhamos nesta postura as costas tão necessárias no surf. Ficar na postura pelo menos três respirações completas para sentir a descompressão e alongamento.

Parsva Balasana ou Postura da Linha na Agulha

É uma postura simples, mas que traz vários benefícios: além de alongar gentilmente a musculatura superior do corpo, descontrai os ombros, desintoxica, sossega a mente e aumenta a circulação sanguínea no tronco e costas, excelente para ajudar a recuperar suavemente os músculos cansados do surf. Como fazemos uma torção na espinha, estamos igualmente a expelir tensões, logo, a sossegar o corpo e mente.

 Salabhasana ou Postura do Gafanhoto

Aqui trabalhamos flexibilidade, mobilidade, respiração e força. O Yoga deve ser sempre praticado dentro do nosso limite, sem nunca exagerar ou sair da zona de conforto. A postura do gafanhoto exige que a nossa parede abdominal se cole ao chão, seja lisa, intensa sendo também o sustento da postura para que quando se elevem as pernas e os braços, o esforço não seja feito na lombar. Fortalece assim as costas, abre o peito, as costas, dando energia ao corpo.

Todas estas posturas foram feitas mediante as indicações de Donald, que apresentava sempre uma contra-postura para ajudar a recuperar algum eventual desconforto. Eu saí da aula mais leve e com mais certezas de que o yoga é o par perfeito do surf. Pura gratidão por ter feito esta aula no Mana. Agora só me falta encontrar aulas de yoga para surfistas perto de casa. #namaste

Lombok, que a civilização demore a chegar

Enquanto Bali foi um ponto de encontro espiritual, Lombok foi a descoberta de paisagens virgens por explorar. De baías azuis turquesas, passeios de mota entre arrozais e altivas palmeiras, e com surf garantido para os mais experientes, esta é a Indonésia que se quer viver no seu estado mais puro.

Esta minha viagem à Indonésia ficou dividia entre as ilhas de Bali e Lombok. Após uns dias por Uluwatu e a aproveitar a boa vibe desta parte da ilha, fui até Kuta, Lombok. Surpreendeu-me a simpatia dos locais, de lhes ver na alma a boa vontade, a harmonia, o querer tratar bem os turistas tão preciosos nestes lugares remotos. É um claro sinal de prosperidade. Surgem os primeiros investimentos a uma escala maior, ainda que muito devagar, nota-se esta vontade de Lombok vingar enquanto destino de férias. Para já, Kuta ainda é uma vila para exploradores, aventureiros, pessoas que procurem por um refúgio da civilização ocidental. Contrasta aqui a Internet, curiosamente, em quase todos os espaços comerciais e de hospitalidade com a falta de água canalizada (diria que as prioridades estão trocadas).

O sossego em Kuta…

Tirando o zumbido constante das motas, consegui em Kuta descansar e desconectar do mundo. Aproveitei conhecer o espaço Mana onde experimentei yoga para surfistas. De longe, para mim, o lugar com mais mística e envolvência para se ficar. Tenho saudades de me sentar no Milk Expresso & Spa de capuccino na mão e a escrever no meu caderno de viagens, de olhos postos na passarela de lambretas rápidas e gente gira a rodopiar (volto a frisar isto, na Indonésia vê-se de facto pessoas mesmo giras, talvez por andarem todas descontraídas, mas é mesmo tudo giro). Quem lá for ao Milk Expresso, recomendo vivamente os pequenos-almoços sejam os ovos com abacate ou os batidos e sumos naturais, e depois aproveitar para fazer uma massagem ao estilo sueco, super relaxante, o melhor que fiz para descomplicar os músculos doridos do surf.

…e nas praias também

Mawi

Tirando duas artérias que atravessam Kuta, o resto da vila bem como os caminhos para as praias são de puro sossego. Aliás quem até aqui viaja sabe que vai atrás da falta de civilização como a conhecemos. Se por um lado temos Kuta de Bali que se assemelha ao nosso Algarve de agosto (no sentido que está cheio de turistas e só se vive para eles), Kuta de Lombok está a romper devagar naquela baía. E ainda bem que assim é. De mota exploram-se os caminhos até se descobrir as praias: Mawi, Are Guling, Tanjung Aan, Selong Belanak. O que têm em comum? Águas cristalinas quentes, areias macias de coral, águas de coco e poucas pessoas (a mais preenchida era Selong Belanak com aulas de surf, pequenos bares de praia em bamboo, cadeiras e chapéus de sol para se passar o dia). São na maioria praias por desbravar, simples, puras, onde os surfistas tentam a sorte naquele mar pouco conhecido. Apenas lamento os plásticos espalhados por toda a parte, que na verdade são um problema por toda a Indonésia.

O surf em Lombok

Gerupuk

Tal como em Bali, o surf não foi fácil para mim. Acho que ficou a faltar um guia local, um professor de surf para me orientar a explorar as praias certas. Tive vontade de entrar em Mawi, mas a onda impôs respeito. Vi os surfistas a remar muito, a tentar contornar a força das correntes do agueiro e isso comprometeu a minha vontade em experimentar. Felizmente fui abençoada em Gerupuk. Marcamos ponto de encontro as 6 da manhã na receção do hotel. Seguimos viagem num caminho de altos e baixos, pranchas penduradas, muita ansiedade por aquilo que nos esperava. À entrada de Gerupuk os locais aguardavam-nos com os barcos prontos para nos navegar até ao primeiro pico, Don-Don, que funciona tanto à esquerda como à direita e apenas quando o mar está maior. Atirei-me do barco, remei, remei, remei. Espreito por cima do ombro direito e vejo a onda a formar, a sorrir para mim. Vinha de facto na minha direção, deixei-me de coisas, e fiz-me à onda. Uau… Lisa, intensa, interminável (remar de volta para o pico foi a segunda parte do desafio, acho que nunca remei tanto quanto nestas férias). Não me irei esquecer da sensação daquela onda. De longe a melhor experiência de surf que já tive, parecia não acabar. Correu tão bem que no segundo dia repeti, mas mais adiante nesta baía de Gerupuk, no pico chamado Inside. Aqui forma uma direita consistente sob fundo de recife. Apanhei mais crowd, mas a simpatia dos locais e confesso, dos surfistas nipónicos (uma agradável surpresa dentro de água), fez tudo fluir. Fica a dica: vale sempre a pena acordar de madrugada. Ver nascer o dia e surfar ao mesmo tempo fez daquele lugar o meu templo do surf.

O lado trendy de Kuta

Há uma liberdade subjacente nestes lugares distantes no mundo (ou do mundo?). Talvez seja por isso que alguns europeus arrisquem deixar para trás a sociedade ocidental e aqui persistirem. Para quem um dia passar por Kuta, El Bazar e Krnk são dois restaurantes com muita boa onda e comida também. Pertencem ao mesmo proprietário e que tem consigo aquela história que tanto queremos ter. A pessoa que abandonou uma carreira internacional das nove às seis na Holanda para descobrir um futuro mais simples em Kuta. Quando lá cheguei ainda estava a sofrer de Bali Belly (não me livrei disso) e felizmente encontrei nestes lugares o conforto de pratos menos adocicados ou picantes e uma boa dose de kombucha para me ajudar a recuperar. O jantar começa cedo e a noite também, é que logo a seguir vamos ter festa num dos bares de praia (há uma festa por noite, todas as noites). Música ao vivo, venda de cogumelos com fartura, Bitangs, miúdas de chinelos e calções, surfistas arranhados pelo fundo coral. Neste misto de culturas conhecemos pessoas de todo o lado, num tempo parado do tempo propenso às conversas soltas pela noite.

O que saber antes de começar a surfar…

Ninguém quer ser o inexperiente no mar. Aliás, acarretamos algum peso quando atravessamos o areal de prancha na mão, cabelos loiros torrados pelo sol, pele bronzeada, cheios de estilo, e depois, se alguém nos observar com atenção, estamos nas espumas a dar grande show de quedas. Não é isto que se quer.

No surf, como em qualquer outra coisa na vida, temos de começar por algum lado. Agora que já tive algumas lições partilho dicas que me teriam sido úteis antes de ter começado a surfar (e assim saber, na verdade, no que me estava a meter).

Domina o pop up

Mais do que qualquer outra manobra que possas vir aprender, levantar da prancha é fundamental para o teu surf evoluir, e bem. Treina sempre que possível, fora de água, o movimento do pop up. Faz exercícios de agilidade e força, foco nos braços, abdominais e pernas. Desenha uma cruz na areia, deita-te e pop up. Repete vezes sem conta. Vais ver que se torna mais rápida a tua progressão (não queiras ignorar essa parte na aula).

Rema, rema, rema

Não estamos habituados a usar os braços no movimento da remada. Confesso que ainda hoje me custa a remada, apesar de trabalhar o corpo nesse sentido. A quanto obriga a força do mar. Não quero com isto passar desmotivação, antes pelo contrário. Ter a noção que este movimento custa e que as ondas não esperam, seja para as apanhar seja para as passar, temos de saber remar.

Encontra a tua prancha

Quando começamos a surfar, a estabilidade é mesmo muito importante, daí as escolas usarem pranchas de espuma, estas têm bastante superfície e flutuabilidade. Escolher a prancha certa, de acordo com o nosso peso e altura, é fundamental para garantir que deslizamos na onda com a estabilidade que precisamos. Experimenta diferentes pranchas até perceberes qual o modelo que melhor se adapta ao teu nível de surf e corpo.

Entra no mar com companhia

Só depois de partir a cabeça é que percebi que entrar sozinha no mar não é opção. Sempre que puderes leva companhia. Caso não tenhas ninguém para entrar contigo está onde estão os outros surfistas. Não te deixes ficar sem companhia no mar.

Mantém-te fiel ao surf

Vais querer desistir. Ninguém me avisou da facilidade com que queremos desistir do surf, porque é difícil evoluir, os dias nunca são iguais, o mar muda constantemente e a nossa mente, trai. Por isso, o que devemos fazer para nos manter motivados é celebra sempre o facto de te tentado, de ter entrado no mar e pensar sempre que a próxima surfada vai ser melhor.

Bucketlist de uma Surfista

Fazer uma bucketlist é assumir a vontade de concretizar sonhos. Ser capaz de traçar objetivos e ir atrás deles. Quero que a minha vida seja feita de boas ações, inspiradas no mar, na vida saudável, na vontade imensa de sair da minha zona de conforto, na minha capacidade de superação.

Recordo-me com franca lucidez o sentimento que me persegue cada vez que sonho com uma viagem. Há três anos que decidi fazer uma viagem, para dentro. Aprender a dar ouvidos à minha intuição, aos meus sonhos e vontades subconscientes através do yoga e da meditação. Já voei muito no tapete, sai do meu lugar de conforto, atravessei o desconhecido e conquistei o topo da montanha espiritual. Desafiei-me a centrar-me no terceiro olho, o Ajna Chakra, para despertar uma mente serena.

Esta conquista deveria ter sido, desde sempre, a primeira cláusula da minha lista “coisas que quero fazer antes de morrer”. Nutrir este amor próprio. Sem lhe dar essa devida importância, ou melhor, pensar nisto como um desejo a cumprir, acabou por ser revelar na minha jornada. Hoje estou pronta para pensar noutros desejos vitais no campo físico, mental e espiritual. Quero a simplicidade da vida nas ações. Quero ser guiada por uma vida cheia de boas intenções. Daí, aqui e agora, a minha bucketlist do surf e yoga.

Viver de frente para o mar.

Conhecer Bali.

Fazer uma surftrip num pão de forma clássico.

Conquistar uma manobra de surf em 2017.

Ensinar a minha sobrinha a surfar.

Viajar para um destino de surf nos invernos.

Deixar a praia sempre melhor do que a encontrei.

Fazer um retiro espiritual todos os anos.

Ser professora de yoga.

DawnPatrol: o surf de madrugada

Ainda que as manhãs sejam de preguiça, ver o dia nascer no mar é uma bênção. Quem ainda não tem o surf enraizado na alma, perde o direito a ondas quase exclusivas ao acordar do dia. Descobre as vantagens do surf nas sessões de dawn patrol.

Não é a primeira vez que falo sobre fazer algum tipo de exercício logo pela manhã. No menu, incluo yoga, corrida ou o surf. Acredito que seja particularmente difícil para quem não aprecia sair da cama antes do nascer do sol, mas se pensarmos bem nos positivos desta ação, os resultados são mais felizes do que ficar na ronha.

O down patrol é o surf de manhã cedo, de madrugada. Apesar de a tradução literal ser patrulha da madrugada, aqueles que observam as condições do mar antes de qualquer raio de sol, para os fiéis ao surf significa vestir o fato de neoprene e ter direito a um swell só para si. Mas há mais razões para nos dedicarmos ao surf de manhã cedo:

  1. Menos crowd. Como nem todos são amantes de acordar de madrugada, a possibilidade de ter muitos surfistas na água é bastante reduzida.
  2. A serenidade da manhã. É um privilégio de poder desfrutar dos sonos da natureza enquanto tudo dorme. E apreciar as cores do céu que devagar mudam de cores frias para quentes.
  3. Ter tempo para nós próprios. Que sejamos egoístas antes de nos dedicarmos ao nosso dia. Ter tempo para nos mimar ou dar aquilo que mais apreciamos é essencial para a nossa vida.
  4. Para quem está sempre à espera do fim-de-semana, um surf de manhã cedo, a meio da semana faz toda a diferença. Além de evoluirmos mais facilmente, retiramos pressão às sessões de sábado e domingo (que nem sempre existem).
  5. Ficamos simplesmente mais felizes para o nosso dia. As endorfinas sobem, o sorriso e boa disposição ficam por perto.

Vamos a isso?

Como desbloquear num agueiro

Muito antes de viver o mar tatuei em mim a palavra flutua. Conservar à superfície, boiar, vogar sobre as ondas. Um estado de alma de serenidade, de simplesmente deixar-me levar pela corrente sem nada temer. Mas em dias de surf como o de hoje, a palavra flutua tem mais significado do que alguma vez considerei ter…

A praia de São João da Caparica é a minha praia na costa; aquela a que mais vou, inverno ou verão. Habituei-me aos picos, ao areal de extensão determinada entre pontões, encontro com os amigos de sempre debaixo dos chapéus de sol e pranchas de surf em espeto na areia. É também o mar que mais sustos ja me causou. Ali parti a cabeça e fui vencida pelo cansaço de lutar contra os agueiros.

Hoje não foi diferente.

O mar vestiu-se de azul escuro. De manhã bem cedo, ainda de pés na areia, o professor questionou: – o que estão a ver? Um agueiro, respondemos. – E onde vamos surfar?, retorquiu. No pico em frente ao banco de areia.

A maré ia encher ao longo da manhã, e a corrente do agueiro ia ajuda o carrossel: entrar pelo canal, apanhar a onda, sair e voltar a entrar pelo canal. Mas já se sabe, nada no surf é matemático. A primeira onda foi feliz. Senti ligeiramente a corrente que nos ia tirando do pico, mas fixada num ponto da terra, sabia onde me manter. Assim veio, sorridente, direita a mim. Livremente flutuei em cima da onda. Por estar de novo na areia, aguardei que o set passasse. Tentei chegar lá fora, mas ingenuamente deixei-me cansar. Remava sem sair do lugar em pleno agueiro. Agarrei-me à prancha e sentindo a areia debaixo dos meus pés, ergui-me e ali me mantive, com água pela cintura, a acalmar a respiração. Fôlego recuperado, recordando a teoria do carrossel, entrei novamente pelo canal.

Nessa altura, entre a primeira onda surfada e a minha insistência em regressar ao mar, tudo tinha mudado. Maré mais cheia. Corrente mais forte. Coloquei-me na prancha, leve e veloz, cheguei ao outside sem grande esforço. Mas é preciso mais astúcia e respeito pelo mar. O agueiro também se intensificou nestes instantes e só depois percebi que não vou sair dali com a mesma agilidade. Bloqueei. E com isso, a respiração torna-se pesada, desesperada, inexistente. Eu estava em pânico e congelei o pensamento, a capacidade de reação. Deixei o medo apoderar-se de mim.

“Senta-te na prancha e não entres em pânico!”, veio de lá a ordem. Eu estava em segurança, embora o cenário soasse a demasiado negro. As ondas não eram grandes, não me punham em aflição. Estava a flutuar sentada na prancha, um tanto ou quanto à deriva, mas sem perigo de me afogar naquele momento. Tinha a prancha, todos estavam calmos ao meu redor, dali haveria de sair. Bastava aguardar pela onda. E não bloquear. Assim foi. Sai do mar na onda que apanhei.

Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Sentei-me na areia a observar o mar. Vi-lhe todas as formas e maus feitios. Sobe e desce inconstante, caminho de cabras em forma líquida, intrigantemente atraente. Levantei-me, peguei na prancha e voltei a entrar. Em cheio no agueiro. Desta vez saio daqui sozinha. E saí.

 

O que aprendi com o mar de hoje?

  • O mar tem uma densidade e profundidade infinitamente misteriosa para o nosso conhecimento. É preciso aprender ler o mar, o melhor que pudermos, sem promessas de sempre saber como vamos sair.
  • Flutuar é a melhor estado para a mente. Se ficar em pânico, não há capacidade de análise e de resposta. E neste sentido, flutuar é a minha palavra para mente calma.
  • Se a nossa velocidade para chegar ao outside for demasiado veloz, algo não está certo. De novo, certificar de que lemos bem o mar antes de entrar.
  • Ainda preciso de mais preparação física para o mar. É sempre tão exigente…
  • Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Como tornar o surf mais apetecível no inverno

O sol está cada vez mais tímido, os dias de chuva e de frio estão-se a intensificar. E agora, coragem para o surf, quem tem? Dicas simples para manter o corpo e alma quente enquanto se desfruta do mar.

Nasci entre a neve dos Alpes; o frio corre-me nas veias desde a infância, mas isso não significa que gosto de ir para o mar com temperaturas baixas. Apenas me tornou mais tolerante em relação ao frio. E para aqueles que me perguntam sempre “mas vais para o surf neste frio?”, eu respondo com muita assertividade, “vou”. Acontece que já não é o primeiro outono/inverno que passo no mar, o que me tem deixado mais preparada em cada temporada. Aqui ficam os meus truques para tornar o surf mais suportável nos meses cinzentos tanto dentro como fora de água.

Chá quente

O chá é um dos maiores aliados do frio. Levar um termo que mantenha a temperatura do chá quente, durante duas horas pelo menos, é meio caminho andado para aquecer o corpo. Por regra, escolho chás com gengibre, cardomomo ou pimenta preta para provocar uma onda de calor de dentro para fora

Vestir como um viking

Imprescindível levar gorro, cachecol e luvas até em certos. O corpo deve ser rapidamente aquecido e estes detalhes fazem a diferença. Uma boa forma de saber como agasalhar após o surf é pensar como se vestia um viking: coberto de pelo de animal nos ombros e pescoço, uma faixa de pele a envolver a zona lombar (os rins regulam a temperatura no corpo), e botas bem quentes. Tapar as extremidades do corpo e as partes mais vulneráveis ao frio.

Saltar à corda

Para quem faz surf no inverno é primordial aquecer o corpo e rapidamente. Nada melhor do que um exercício físico intenso como o salto à corda. Durante dois minutos, salta. Aumenta a circulação, o ritmo cardíaco e o corpo aquece, tornando até menos doloroso despir para vestir o fato de surf.

Sempre em movimento

Dentro de água, quando o swell é menos intenso, mantém-te à mesma em movimento. Treina a remada, procura o pico das ondas. Não te deixes ficar na prancha à espera que a onda vá ao teu encontro. Precisamos de manter o corpo quente, e para isso, há que ter o coração em bom ritmo, sempre a pulsar com alguma intensidade.

Neoprene de qualidade

Por mais óbvio que possa parecer, de facto, devemos apostar num bom fato, selado e bem temperado (ou seja, pelo menos com uma espessura 4/3). Além disso, acrescenta as botas de neoprene. O ideal é aproveitar coleções anteriores e a época de saldos para comprar um fato de qualidade com preços mais simpáticos. Garantes assim uma boa temperatura no corpo enquanto estás no mar gelado, vale a pena o investimento.