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No surf sossegado de Basileia

Há uma certa inquietação ainda latente em mim… um acordar madrugador para espreitar a primeira maresia para o surf. Aos poucos, no entanto, tenho vindo a sossegar a mente e a aceitar que a minha realidade é e será esta, durante os próximos tempos, longe do mar. Não deixo o Carver de parte, sempre que posso finjo estar na água a deslizar pela parede da onda. É uma questão de imaginação fértil e sentir o sopro na pele que a velocidade do skate provoca para me fazer reviver um pouco a boa energia de seduzir uma onda (de alcatrão, eu sei). Mas é assim que tenho passado o tempo, nas calmas, a aprender a gostar deste sossego por Basileia.

O que ajuda também é a descoberta da cidade de bicicleta, as idas ao ginásio onde a consistência dos treinos se focam nos movimentos do surf, na agilidade, na resistência cardio. Fica apenas em falta o regresso a um estúdio de yoga para me ajudar encaixar mais um pouco a minha vida nesta vida dos Alpes… e libertar-me do irresistível vício do chocolate (eterna luta, confesso). Dez meses volvidos e só agora é que sinto que posso conquistar certas glórias por aqui – as saudades de casa fazem-me nos comer desmedidamente, coisas boas, coisas não tão boas em especial a quem se dedicou nos últimos 4 anos a comer de forma mais consciente e saudável. Mas como disse, aos poucos, este surf sossegado de Basileia está-me a levar a bom porto.

Por algum motivo, um bom motivo, a vida lá me mandou para estas bandas. Hoje não sei a resposta mas não tarda terei sentido para esta experiência. Dela, só levarei de volta coisas positivas. Com toda a certeza.

 

 

No princípio estava a onda

Hoje tenho um boa onda para partilhar. Aquela de meio metro, que se dobra contorcida numa criança feliz, sem tempo para desperdiçar. Como é bom não parar um segundo e querer a todo o instante sentir esta vida ondular que desliza entre o leve sopro da brisa e a energia contagiante do mar. Isto para te admitir, voltei ao mar. A amar o mar.

Pensei que não fosse capaz, que ali tivesse para sempre uma memória associada, ainda que de bons momentos, mas que refletissem a saudade. Saudade pesada ancorada a uma vida que não volta mais à tona, e afunda, profunda. Só que encontrei na minha prancha a tábua de salvação. A capacidade de mergulhar por baixo de cada onda, rebentação, espuma branca, e regressar, rompendo pela crista acima.

Sem saudade.

Depois, passei também a saber que basta encontrar o foco, não pensar, focar para onde quero navegar a vida e deixar-me ir. Posso cair, posso levar com a tábua cabeça, a cabeça pode de novo partir, mas como Buda diz, por pior que tenha sido o passado, podemos e devemos sempre recomeçar. E é isso que me ensina o mar.

Estou grata por permanecer em mim a curiosidade ingénua de uma criança que desbrava o mundo no primeiro andar. Observar assim mesmo como se tudo fosse a primeira vez nesta intensidade ondular da vida que vai e vem, traz e leva, retira e devolve, e só aproveita quem se deixar levar pelo mar. Como os carreirinhos que fazemos de braços estendidos e biquinis perdidos, enrolados e divertidos, nas ondas tombando ininterruptamente de puro espaço e lúcida unidade, onde apenas encontramos, apaixonadamente, a nossa própria liberdade*.

Por isso não fazia sentido ficar com saudade de um momento que não é meu, de uma saudade que não me faz sentir a superfície. De uma saudade que não vale a pena ser saudade. Porque o que se quer é sentir uma gratidão profunda por tudo o que o universo nos dá, sempre em medida certa. Ondas grandes, ondas pequenas, ondas picadas e revoltadas. Puras ondas. Boas ondas.

Tinha mesmo de voltar ao mar. Acima de tudo, a amar o mar.

*Sophia de Mello Breyner Anderson

Para o ano há que surfar mais ainda

A última vez que vim a casa, em Outubro, fui brindada pela mãe natureza com o furacão Ofélia. Estive 10m dentro de água, provavelmente menos. Mas pelo menos senti de novo a pele salgada, e consequentemente, energias renovadas. Aqui estou, meses depois, para descansar em casa e aproveitar os bons dias de dezembro de maresias mais suaves.

Não é fácil remar. O meu corpo já não está habituado ao movimento e tendo tido bronquite asmática no último mês, faz com que o meu regresso seja para lá de vagaroso. Mas tenho de ter paciência e respeitar acima de tudo o meu corpo. Dar-lhe tempo para reagir ao surf. Dormir, alimentar-me bem, frequentar as aulas de yoga e recuperar da melhor forma.

Tenho ido até à praia de Carcavelos nestes dias. O mar tem estado pequeno, o sol tem sido generoso, e ali fico sentada a contemplar o lado bom da vida. Se há uns meses vingavam ondas grandes e potentes, agora dançam os pequenos swells que acalmam a alma. Assim se faz a vida, de um ciclo para outro, pedindo sempre humildade em aceitar o que o mar nos traz.

Esta corrente leva-me a pensar no meu 2017. Surfar muito foi um dos objectivos que estabeleci. Por isso, enquanto aqui estou – até regressar aos Alpes – vou pegar na prancha e cumprir o máximo desta missão. Porque para o ano, der por onde der, há que surfar ainda mais.

5 pilares de Dorian Paskowitz para uma vida cheia de saúde e surf

Quando ganhamos admiração por alguém e ficamos com o vazio de nunca poder conhecer, conviver com essa mesma pessoa, é o que sinto, depois de aprender um pouco sobre a vida de Dorian ‘Doc Paskowitz no documentário Surfwise. Um surfista, médico judeu, que abandonou as convicções de uma vida estandardizada para criar uma família de 9 filhos numa velha carinha e muito surf. O meu objetivo não é convencer ninguém a fazer o mesmo, quero antes passar as mensagens vitais de Dorian, o homem que levou o surf até Israel e colocou a saúde em sintonia com o mar.

Para Doc, o surf estava intimamente ligado à saúde, ao viver bem, com longevidade. No livro “Surfing and Health” fala sobre cinco pilares que fazem isso acontecer: dieta, exercício, descanso, lazer, e atitudes da mente. Admirei-o pela franqueza com a qual interpretou a vida, a humildade de não querer ser uma ovelha no rebanho, e destreza de perceber que numa vida ligada ao mar facilmente se atingem os cinco pilares, logo a longevidade. Doc faleceu a 14 de novembro de 2014 com 93 anos, apesar de todas as mazelas que o envelhecimento traz, acreditava que a “saúde é a presença de um estado de bem-estar superior, um vigor, uma vitalidade, uma energia (garra) para a qual tens de trabalhar todos os dias da tua vida,” (tens trabalhado para isso?).

#Dieta

A alimentação importa a todos, não apenas a atletas de alta competição. Esta palavra significa que sabemos fazer escolhas conscientes para o nosso corpo e sentir a plena energia proveniente dos ingredientes naturais. Neste sentido, um pouco extremista talvez, Doc dizia que não queria fazer nada que fosse diferente do comportamento dos nossos primatas. Se comem maçã sem casca, nós também vamos tirar a casca.

#Exercício

Nunca na vida seremos completamente saudáveis se mantivermos o exercício físico longe da vista, longe dos músculos. Doc levava os filhos a surfar todos os dias. Caminhar igualmente todos os dias 10km, correr, praticar alguma atividade que nos dê prazer faz com tenhamos força de vontade, coragem, audácia e consequentemente, mais saúde. Para Doc, o surf é o desporto que devolve a vida ao corpo. Eu, subscrevo, atentamente.

#Descanso

Dormir é tão importante quanto beber água. Desligar o motor e entrar em descanso profundo para recuperar as células do nosso dia desgastante (isto porque quase ninguém larga a vida que tem para andar de caravana à procura da melhor onda, se sim, dá-me coragem para o fazer). Dormir 8 horas por dia. Dormir bem. Todos os dias.

#Lazer

O que é a vida sem prazer, sem nunca fazermos aquilo de que gostamos? Ler, escrever, praticar yoga, jantar com amigos, passar bons momentos seja no que for. Vivenciar uma experiência que nos dê prazer deixa-nos mais felizes, relaxados, menos propensos a pensamentos negativos e isso traz saúde, vitalidade. E cereja no topo do bolo, incluir gargalhadas vindas da alma.

#Atitudes da mente

A sabedoria vem da intenção, da experiência e de encontrar coragem. E tudo isto permite uma vida mais positiva, resiliente. Doc viveu até aos 93 anos com problemas de saúde crónicos – asma e artrite – ainda assim, o surf susteve-o durante todos os seus dias. Ali encontrou no pensamento positivo e forte, a forma de contornar os problemas, chutando para canto o que não interessava.

Quem me acompanha desde o início do Mar de Sal, sabe que tenho vindo a trabalhar esta transformação em mim – a de me tornar mais saudável. Procuro continuamente inspirar-me em indivíduos únicos como Dorian Paskowitz; procuro acordar todos os dias grata pela oportunidade do dia, de enxotar os pensamentos negativos, de recusar açúcar e outros alimentos não naturais, de encontrar um desporto (na ausência do meu surf) que me deixe feliz, cheia de vitalidade, de descobrir sempre a melhor forma de viver eternamente aqui e agora.

E tu alinhas a fazer o mesmo?

Health is a presence of a superior state of wellbeing, a vigor, a vitality, a pizzazz you have to work for every single day of your life.

O surf é compromisso para o resto da vida

Sinceramente não sei como vou voltar ao surf depois destes meses sem entrar no mar. Alguma dica? Lembro-me de um amigo dizer, num tom frustrado, que voltava sempre à estaca zero depois de estar uma temporada sem salgar o corpo.

Eu comprometi-me com o surf como uma relação para a vida, com marés altas, marés baixas, meia goofy ou regular. O que interessa é que hei-de sempre, nalgum momento, entrar por mar adentro com a minha prancha e aproveitar a harmonia que a mãe natureza me dá.

Só que não sei como me vou sentir quando me deparar com o swell… como vai ser este reencontro. Conhecendo-me como me conheço, o mais provável é petrificar uns instantes. Já sei, é não pensar tanto no assunto e deixar-me ir na altura, de sorriso na alma, e entregar-me com toda a paixão e motivação que possa ter. Será o melhor cenário, e o meu foco também para os longos meses de inverno que se avizinham.

Dylan Graves disse um dia que as melhores ondas coincidem sempre com algo importante na nossa vida. É isso que sinto agora à distância quando tenho o telemóvel aos apitos na partilha das ondas do dia. É isso que sinto cada vez que não posso pegar no carro e seguir estrada fora até uma praia qualquer à volta de Lisboa para descobrir aquela onda sorridente na minha direção. Há sempre algo mais importante que me me impede de ter esse momento. Estranha vida a minha. Quando assumi este compromisso com o surf, nunca pensei que ficar longe do mar fosse opção… Vi-me unida ao surf, e com ele, para sempre, por perto. Só que não. Aqui estou. Longe quando o mais importante era estar presente. Porque estava a evoluir, a querer mais, a vencer o medo, a ganhar resistência. Apanhada neste agueiro só me resta remar paralelamente até conseguir sair, nas calmas. Porque como disse, estou de caso sério com o surf. E será para o resto da minha vida.

Desabafo de uma surfista em transição

As correntes levam a água salgada a percorrer milhas infinitas. Eu tenho a certeza que vai e volta, não perece no mesmo lugar. Também acredito que esta magia natural corre nas minhas veias. Vou de um lado para o outro, retorno, mas nunca fico demasiado tempo no mesmo lugar. Pela (novamente) primeira vez, em 25 anos, a vida afastou-me do mar. Estou de passagem numa nova experiência e essa decisão custou-me o surf, a praia, a vida boémia ligada ao sal.

Mas alma de surfista será sempre de surfista, esteja onde estiver. Rodeada de montanhas, neve, julho chuvoso, serei surfista. De pele esbranquiçada, cabelo escurecido, serei surfista. Mal humorada pela ausência de sol, apática pelo inaudível som tranquilizante do swell, serei surfista porque corre em mim água salgada nas veias.

Hoje mergulho no rio frio. Recorda-me as vezes que tive o privilégio de ter o mar aos meus pés. E vou ser tão mais grata pela oportunidade de voltar a surfar, de voltar à praia, ao meu lugar. Até lá, sigo e aprendo a viver sem swell.

Como bate forte a saudade de temperar a alma nas ondas…

Como sobre(viver) sem mar

Há uma expressão em inglês que define o meu estado físico neste momento: landlock, presa em terra. Viver com o mar a espreitar no fundo da rua era dado adquirido. Estivesse sol ou chuva, inverno ou verão, ali permanecia o meu mar. Acontece que o malandro tem correntes e desta vez arrastou-me para longe dele. E o surf, perguntam-me. Não sei, mas estou a encontrar forma de sobreviver até o reencontrar.

A maioria deve estar a desfrutar do bom verão português, brindada pela maravilhosa costa que temos, praias por desbravar, peles bronzeadas, pranchas de surf espalhadas, carros repletos de areia e apetrechos de quem passa o dia virado a sol. Onde estou, não tenho nada disso. Confesso que é castigo não ver a imensidão azul no nosso raio de visão, e honestamente, para quem é surfista, custa a triplicar vezes infinito. Mas, como em tudo na vida, temos de nos centrar no lado certo da equação, como quem diz, encontrar uma forma de manter a vida de mar por perto.

Espírito de surf por toda a casa

Fotografias a posters, mapas, adereços, decoração em tons de mar, em casa tudo tem de transpirar espírito de praia. Também vale usar incenso que tenha na embalagem algo como “ocean breeze”. A próxima estratégia é encontrar uma prancha de surf faz de conta para pendurar na parede (como não vou usar, pode ser em cartolina). Se mantivermos o espírito do surf um pouco por toda a parte, disfarça a distância a que estamos do mar.

Vida de surfista continua online

Sites de surf? Subscrevo a todos. Tenho o email cheio de swell, imparáveis notificações nas redes sociais sobre surf, vídeos no youtube de aulas, tutoriais, inspirações… Tudo vale para viajar mentalmente até ao mar. Embora possa soar a tortura na verdade serve para me manter ligada a este estilo de vida.

O asfalto nunca acaba

As ondas nem sempre temos. O asfalto nunca acaba e, por isso, o melhor é ter um skate. Em termos de movimento e de sensação de liberdade, o skate engana o cérebro. É o meu faz de conta que estou em cima da onda a ripar.

Ter foco noutras atividades físicas

Mais fácil é encontrar um lugar para praticar yoga e estrada para correr. Passeios de bicicleta pelo campo também me ajudam a abstrair. O meu foco é encontrar atividades físicas que me mantenham em forma para quando for altura de regressar ao mar, a surfada não seja tão exigente fisicamente.

Encontrar amigos do mar

Se há algo fácil de descobrir – acho que há uma empatia instantânea entre a comunidade surfista – é um amante do mar. Aqui presa em terra já encontrei vários surfistas e estar à conversa com eles ajuda a desligar a ausência das ondas; é que o tema passa a ser snowboard.

 

Sessão de surf a solo

Ao início, quando nos metemos nisto do surf, é complicado ter companhia e acabamos muitas vezes por ter direito a sessões de surf a solo. Isto porque não saímos das espumas, demoramos a chegar ao outside, caímos muitas vezes e quem já sabe apanhar ondas é exatamente isso que vai fazer. Mas podemos sempre aprender a desfrutar das nossas idas solitárias ao mar.

Entrar no mar sozinha assusta, confesso. Há que chegar à praia e perceber o estado do mar, se há correntes e as dúvidas que tiver, não tenho ninguém para as debater. Depois, quando entro no mar fico preocupada com a minha figura, os outros surfistas vão perceber que sou principiante, as quedas podem ter um tom mais ridículo e sabe-se lá se não me magoo no meio disto tudo. Portanto, surf e solidão até aqui, parecem não combinar. Só que a experiência da vida, seja ela onde e como for, torna-nos mais sólidos e ensina-nos a superar os medos e a falta de confiança. O que aqui escrevo hoje não é uma fórmula mágica, mas é a minha estratégia para aproveitar melhor estas sessões de surf sem companhia.

Surfar na praia do costume

Quando decido ir sozinha, vou para uma praia que conheço. Apanhar ondas numa praia que nos é familiar, até mesmo com o crowd que possa lá estar, faz-nos ter mais confiança para entrar.

Primeiro a segurança

Agueiros, correntes, simplesmente ficar em perigo não é surf. Devemos ir até onde temos capacidade mental e física. Já sabemos que o surf demora tempo para se aprender, por isso, uma onda de cada vez. E por falar em segurança, nada de deixar as roupas, carteiras, mochilas, sacos, o que for, à vista no carro.

Concentrar no nosso surf

Porque, sinceramente, é o que todos fazem. Ninguém está a avaliar o que fazemos, se caímos ou se temos falta de jeito. O surf é um desporto tão individualista que na verdade só nos faz preocupar com a próxima onda que vamos apanhar, por isso, a nossa figura nada interessa aos restantes surfistas.

Ter bom espírito

Significa ter sentido comunitário, cumprimentar os outros surfistas (aqui há vantagem se fores miúda). Tentar manter o civismo dentro de água, evitar de roubar a onda a alguém e caso aconteça por acidente, pedir desculpa é uma atitude bagus. E faz com que a nossa surfada se torne mais fácil, fluida.

Cair faz parte

Já não me preocupo mais com isso, cair é natural, até o Kelly Slater cai da prancha. Não faz de mim menos capaz, aliás é com as quedas que vamos aprendendo. Nada de sentir vergonha ou desmotivar. A atitude certa é voltar a pegar na prancha e tentar, só mais uma vez. É assim que se constrói a confiança.

Recompensa após o surf

Quando termino a minha surfada solitária, gosto de me presentear. Nada como uma mega taça de açaí na Padaria da Praia, em São João da Caparica para me fazer sentir meritória do meu esforço e dedicação.