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#wavestories: o porquê do surf na minha vida

#wavestories: o porquê do surf na minha vida

*episódio piloto*

A verdade é simples, eu comecei a surfar por causa de um desgosto de amor. Este foi o porquê do surf na minha vida.

Sempre o escrevi aqui no Mar de Sal, que a minha ligação a água não começou com o surf, mas antes com o ski na barragem de Montargil. Um dia, deixei de ter este prazer que me fazia esquecer o mundo e querer deslizar na água. Tive de o substituir pelo surf, depois de um final de verão amargo para experimentar o pela primeira vez.

A aula foi uma surpresa, que até hoje sou grata por a ter tido, na praia do Guincho. Tinha a alma lavada em tristeza quando me enfiaram na água. Uma prima teve a ideia de me oferecer a aula para me animar o espírito. Talvez, inconscientemente, tenha sempre deixado a impressão de que gostaria de surfar. Um dia.

Esse dia chegou. Estou e sou feliz por ter descoberto no surf um aliado às boas energias, aos bons pensamentos e à capacidade que o mar tem de nos fazer esquecer as amarguras. No mar não há espaço para lágrimas.

O ski deu-me preparação para o equilíbrio em cima da prancha, foi tão fácil perceber como fazer para me levantar e deixar-me ir. A parte complicada era ter força nos braços (ainda hoje luto por essa agilidade), com jeitinho lá o professor me empurrava nas espumas. Nada como um sorriso para desencantar oportunidades. A sensação foi incrível, não a consigo descrever. Juro que me faltam palavras. Tão incrível que até hoje resiste. Persiste.

Isto foi anos antes de levar o surf mais a sério. Guardei esse dia, e acabei por deixar passar demasiado tempo até regressar. O que me fez voltar a experimentar foi a lista de resoluções do ano novo. Meti na cabeça que o surf e o yoga iam fazer parte da minha vida. Sem mais demoras, nos primeiros dias do ano, inscrevi-me na Lufi Surf School, na Costa da Caparica e religiosamente lá me apresentava aos fins de semana. Era janeiro. Quando me meto nalguma aventura, dedico-me. E com o surf não ia ser diferente. Não quis saber do frio, do mar grande, dos perigos, do cansaço. do sal nos olhos. A única coisa que queria era surfar. E esquecer os desencantos da vida.

Faz agora à volta de quatro anos e meio que me meti nisto. Como consequência, a minha escrita passou também a ser sobre as minhas experiência de mar, de vida, sempre de mãos dadas.Tudo por causa de um desgosto de amor que no final de contas, só teve importância porque me fez surfar. Ah, vida sábia.

#wavestories o começo das histórias do mar

Quando comecei a escrever no Mar de Sal, a ideia era ter um lugar de inspiração. De mar, de surf, de yoga, de boa vida e sustentabilidade. Mas também um espaço para histórias de sal.

Mudar-me para a Suíça afastou-me do propósito da escrita. Sinto que por estar longe do mar, não serei autêntica a partilhar momentos. No entanto, sou feita de memórias e estas estão bem encravadas nas células que me fazem viver.

Não me comprometo com nada nem ninguém. Quero apenas começar a partilhar a série #wavestories. Momentos da vida de mar vividos por mim, por terceiros. Por paixão ao mar, por paixão à escrita. Porque sem nenhum dos dois a minha vida faz sentido e estou a precisar de lhe dar ondulação.

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O que apenas um apaixonado por mar consegue perceber

Para algumas pessoas praia é sinónimo de verão. Dias de sol escaldantes, noites de festa na areia, peixe fresco e bebidas veraneantes à mistura. Peles bronzeadas e o sacudir da areia ao final do dia para regressar ao hotel ou onde estiverem hospedados. Apenas uns dias do ano em que se dedicam à vida de praia, de lazer.

Mas para quem, como eu, se habituou a ver o mar todos os dias ao fundo da rua, a entrar nele faça frio ou faça sol, torna-se estranho ou mesmo difícil entender esta paixão imensa azul que nos corre nas veias. O que apenas um apaixonado por mar percebe…

  1. A praia não é apenas verão. Significa mergulhar de corpo e alma inverno ou verão, seja para surfar, dar uma caminhada, respirar ar fresco. Tão vital quanto isto.
  2. Há um orgulho irradiante nas pessoas que vivem perto do mar, inconsciente. É que corre um sorriso de dentro quando dizemos onde vivemos. No fundo da minha rua vejo o mar…
  3. As soluções dos nossos problemas dissolvem-se na rebentação das ondas. O mar tem um efeito tranquilizante na nossa mente. Sentar na praia uns minutos por dia, com os pés na areia, e a ouvir o mar, significa encontrar respostas.
  4. A comida tem mais sabor quando se vive perto do mar. Vai uma aposta? Dizem que é do sal, do mar, do sol, da boa energia. Tudo sabe melhor.
  5. Nunca se perde aquele encantamento inocente quando se regressa ao mar. É como se o víssemos sempre pela primeira vez.
  6. Um verdadeiro apaixonado por mar não compreende os não gostam de mar. Não se percebe, mesmo. É que não dá mesmo para perceber… Sério.
  7. Não nos imaginamos viver longe do mar. E mesmo que se viva, será por uns tempos. Filhos de marés regressam sempre à sua praia.
  8. 80% das nossas roupas são para a praia. É uma moda que não passa de moda, digamos.
  9. Não nos importamos de trazer a areia connosco para o carro, casa, sapatos… Há sempre areia presente. Faz parte da mobília.
  10. Planear viagens inclui sempre presença de mar. É complicado ficar em “terra” apenas.
  11. Respeitamos o poder do mar. Deixamos as praias limpas, não desafiamos o mar considerando-nos inatingíveis. O mar é bom, mas não descuramos do seu poder.
  12. Nada nos deixa mais felizes do que um mergulho no mar.

Portanto, se és apaixonado pelo mar tudo isto faz sentido. Se não faz, é porque não és. Simples assim.

No surf sossegado de Basileia

Há uma certa inquietação ainda latente em mim… um acordar madrugador para espreitar a primeira maresia para o surf. Aos poucos, no entanto, tenho vindo a sossegar a mente e a aceitar que a minha realidade é e será esta, durante os próximos tempos, longe do mar. Não deixo o Carver de parte, sempre que posso finjo estar na água a deslizar pela parede da onda. É uma questão de imaginação fértil e sentir o sopro na pele que a velocidade do skate provoca para me fazer reviver um pouco a boa energia de seduzir uma onda (de alcatrão, eu sei). Mas é assim que tenho passado o tempo, nas calmas, a aprender a gostar deste sossego por Basileia.

O que ajuda também é a descoberta da cidade de bicicleta, as idas ao ginásio onde a consistência dos treinos se focam nos movimentos do surf, na agilidade, na resistência cardio. Fica apenas em falta o regresso a um estúdio de yoga para me ajudar encaixar mais um pouco a minha vida nesta vida dos Alpes… e libertar-me do irresistível vício do chocolate (eterna luta, confesso). Dez meses volvidos e só agora é que sinto que posso conquistar certas glórias por aqui – as saudades de casa fazem-me nos comer desmedidamente, coisas boas, coisas não tão boas em especial a quem se dedicou nos últimos 4 anos a comer de forma mais consciente e saudável. Mas como disse, aos poucos, este surf sossegado de Basileia está-me a levar a bom porto.

Por algum motivo, um bom motivo, a vida lá me mandou para estas bandas. Hoje não sei a resposta mas não tarda terei sentido para esta experiência. Dela, só levarei de volta coisas positivas. Com toda a certeza.

 

 

No princípio estava a onda

Hoje tenho um boa onda para partilhar. Aquela de meio metro, que se dobra contorcida numa criança feliz, sem tempo para desperdiçar. Como é bom não parar um segundo e querer a todo o instante sentir esta vida ondular que desliza entre o leve sopro da brisa e a energia contagiante do mar. Isto para te admitir, voltei ao mar. A amar o mar.

Pensei que não fosse capaz, que ali tivesse para sempre uma memória associada, ainda que de bons momentos, mas que refletissem a saudade. Saudade pesada ancorada a uma vida que não volta mais à tona, e afunda, profunda. Só que encontrei na minha prancha a tábua de salvação. A capacidade de mergulhar por baixo de cada onda, rebentação, espuma branca, e regressar, rompendo pela crista acima.

Sem saudade.

Depois, passei também a saber que basta encontrar o foco, não pensar, focar para onde quero navegar a vida e deixar-me ir. Posso cair, posso levar com a tábua cabeça, a cabeça pode de novo partir, mas como Buda diz, por pior que tenha sido o passado, podemos e devemos sempre recomeçar. E é isso que me ensina o mar.

Estou grata por permanecer em mim a curiosidade ingénua de uma criança que desbrava o mundo no primeiro andar. Observar assim mesmo como se tudo fosse a primeira vez nesta intensidade ondular da vida que vai e vem, traz e leva, retira e devolve, e só aproveita quem se deixar levar pelo mar. Como os carreirinhos que fazemos de braços estendidos e biquinis perdidos, enrolados e divertidos, nas ondas tombando ininterruptamente de puro espaço e lúcida unidade, onde apenas encontramos, apaixonadamente, a nossa própria liberdade*.

Por isso não fazia sentido ficar com saudade de um momento que não é meu, de uma saudade que não me faz sentir a superfície. De uma saudade que não vale a pena ser saudade. Porque o que se quer é sentir uma gratidão profunda por tudo o que o universo nos dá, sempre em medida certa. Ondas grandes, ondas pequenas, ondas picadas e revoltadas. Puras ondas. Boas ondas.

Tinha mesmo de voltar ao mar. Acima de tudo, a amar o mar.

*Sophia de Mello Breyner Anderson

Para o ano há que surfar mais ainda

A última vez que vim a casa, em Outubro, fui brindada pela mãe natureza com o furacão Ofélia. Estive 10m dentro de água, provavelmente menos. Mas pelo menos senti de novo a pele salgada, e consequentemente, energias renovadas. Aqui estou, meses depois, para descansar em casa e aproveitar os bons dias de dezembro de maresias mais suaves.

Não é fácil remar. O meu corpo já não está habituado ao movimento e tendo tido bronquite asmática no último mês, faz com que o meu regresso seja para lá de vagaroso. Mas tenho de ter paciência e respeitar acima de tudo o meu corpo. Dar-lhe tempo para reagir ao surf. Dormir, alimentar-me bem, frequentar as aulas de yoga e recuperar da melhor forma.

Tenho ido até à praia de Carcavelos nestes dias. O mar tem estado pequeno, o sol tem sido generoso, e ali fico sentada a contemplar o lado bom da vida. Se há uns meses vingavam ondas grandes e potentes, agora dançam os pequenos swells que acalmam a alma. Assim se faz a vida, de um ciclo para outro, pedindo sempre humildade em aceitar o que o mar nos traz.

Esta corrente leva-me a pensar no meu 2017. Surfar muito foi um dos objectivos que estabeleci. Por isso, enquanto aqui estou – até regressar aos Alpes – vou pegar na prancha e cumprir o máximo desta missão. Porque para o ano, der por onde der, há que surfar ainda mais.

5 pilares de Dorian Paskowitz para uma vida cheia de saúde e surf

Quando ganhamos admiração por alguém e ficamos com o vazio de nunca poder conhecer, conviver com essa mesma pessoa, é o que sinto, depois de aprender um pouco sobre a vida de Dorian ‘Doc Paskowitz no documentário Surfwise. Um surfista, médico judeu, que abandonou as convicções de uma vida estandardizada para criar uma família de 9 filhos numa velha carinha e muito surf. O meu objetivo não é convencer ninguém a fazer o mesmo, quero antes passar as mensagens vitais de Dorian, o homem que levou o surf até Israel e colocou a saúde em sintonia com o mar.

Para Doc, o surf estava intimamente ligado à saúde, ao viver bem, com longevidade. No livro “Surfing and Health” fala sobre cinco pilares que fazem isso acontecer: dieta, exercício, descanso, lazer, e atitudes da mente. Admirei-o pela franqueza com a qual interpretou a vida, a humildade de não querer ser uma ovelha no rebanho, e destreza de perceber que numa vida ligada ao mar facilmente se atingem os cinco pilares, logo a longevidade. Doc faleceu a 14 de novembro de 2014 com 93 anos, apesar de todas as mazelas que o envelhecimento traz, acreditava que a “saúde é a presença de um estado de bem-estar superior, um vigor, uma vitalidade, uma energia (garra) para a qual tens de trabalhar todos os dias da tua vida,” (tens trabalhado para isso?).

#Dieta

A alimentação importa a todos, não apenas a atletas de alta competição. Esta palavra significa que sabemos fazer escolhas conscientes para o nosso corpo e sentir a plena energia proveniente dos ingredientes naturais. Neste sentido, um pouco extremista talvez, Doc dizia que não queria fazer nada que fosse diferente do comportamento dos nossos primatas. Se comem maçã sem casca, nós também vamos tirar a casca.

#Exercício

Nunca na vida seremos completamente saudáveis se mantivermos o exercício físico longe da vista, longe dos músculos. Doc levava os filhos a surfar todos os dias. Caminhar igualmente todos os dias 10km, correr, praticar alguma atividade que nos dê prazer faz com tenhamos força de vontade, coragem, audácia e consequentemente, mais saúde. Para Doc, o surf é o desporto que devolve a vida ao corpo. Eu, subscrevo, atentamente.

#Descanso

Dormir é tão importante quanto beber água. Desligar o motor e entrar em descanso profundo para recuperar as células do nosso dia desgastante (isto porque quase ninguém larga a vida que tem para andar de caravana à procura da melhor onda, se sim, dá-me coragem para o fazer). Dormir 8 horas por dia. Dormir bem. Todos os dias.

#Lazer

O que é a vida sem prazer, sem nunca fazermos aquilo de que gostamos? Ler, escrever, praticar yoga, jantar com amigos, passar bons momentos seja no que for. Vivenciar uma experiência que nos dê prazer deixa-nos mais felizes, relaxados, menos propensos a pensamentos negativos e isso traz saúde, vitalidade. E cereja no topo do bolo, incluir gargalhadas vindas da alma.

#Atitudes da mente

A sabedoria vem da intenção, da experiência e de encontrar coragem. E tudo isto permite uma vida mais positiva, resiliente. Doc viveu até aos 93 anos com problemas de saúde crónicos – asma e artrite – ainda assim, o surf susteve-o durante todos os seus dias. Ali encontrou no pensamento positivo e forte, a forma de contornar os problemas, chutando para canto o que não interessava.

Quem me acompanha desde o início do Mar de Sal, sabe que tenho vindo a trabalhar esta transformação em mim – a de me tornar mais saudável. Procuro continuamente inspirar-me em indivíduos únicos como Dorian Paskowitz; procuro acordar todos os dias grata pela oportunidade do dia, de enxotar os pensamentos negativos, de recusar açúcar e outros alimentos não naturais, de encontrar um desporto (na ausência do meu surf) que me deixe feliz, cheia de vitalidade, de descobrir sempre a melhor forma de viver eternamente aqui e agora.

E tu alinhas a fazer o mesmo?

Health is a presence of a superior state of wellbeing, a vigor, a vitality, a pizzazz you have to work for every single day of your life.

O surf é compromisso para o resto da vida

Sinceramente não sei como vou voltar ao surf depois destes meses sem entrar no mar. Alguma dica? Lembro-me de um amigo dizer, num tom frustrado, que voltava sempre à estaca zero depois de estar uma temporada sem salgar o corpo.

Eu comprometi-me com o surf como uma relação para a vida, com marés altas, marés baixas, meia goofy ou regular. O que interessa é que hei-de sempre, nalgum momento, entrar por mar adentro com a minha prancha e aproveitar a harmonia que a mãe natureza me dá.

Só que não sei como me vou sentir quando me deparar com o swell… como vai ser este reencontro. Conhecendo-me como me conheço, o mais provável é petrificar uns instantes. Já sei, é não pensar tanto no assunto e deixar-me ir na altura, de sorriso na alma, e entregar-me com toda a paixão e motivação que possa ter. Será o melhor cenário, e o meu foco também para os longos meses de inverno que se avizinham.

Dylan Graves disse um dia que as melhores ondas coincidem sempre com algo importante na nossa vida. É isso que sinto agora à distância quando tenho o telemóvel aos apitos na partilha das ondas do dia. É isso que sinto cada vez que não posso pegar no carro e seguir estrada fora até uma praia qualquer à volta de Lisboa para descobrir aquela onda sorridente na minha direção. Há sempre algo mais importante que me me impede de ter esse momento. Estranha vida a minha. Quando assumi este compromisso com o surf, nunca pensei que ficar longe do mar fosse opção… Vi-me unida ao surf, e com ele, para sempre, por perto. Só que não. Aqui estou. Longe quando o mais importante era estar presente. Porque estava a evoluir, a querer mais, a vencer o medo, a ganhar resistência. Apanhada neste agueiro só me resta remar paralelamente até conseguir sair, nas calmas. Porque como disse, estou de caso sério com o surf. E será para o resto da minha vida.