Do episódio é fácil surfar

A história difícil no surf é a evolução. Por mais que vás, por mais que remes, por mais que te atrevas não ficas a surfar ao fim de um dia. Leva tempo, muito tempo.

Chega a ser frustrante. Passas a semana na rotina dos horários casa-trabalho-casa até que te chega o tão esperado fim de semana. Durante aqueles dias pensas nas ondas. Revês os teus movimentos, passam em sequência, várias vezes ao dia, na tua mente. Olhas pela janela do escritório e imaginas ali a poucos metros o mar. Até que foges às sextas-feira, voas até casa. Não há espaço para saídas. Apenas cama, descanso e ondas no sábado de manhã. Só que não. Um swell de obstáculos tropeçam em ti. Precisas de vontade, muita força de vontade e mais do que isso, tens mesmo de gostar desta coisa a que chamamos de surf para poderes desfrutar.

Primeiro entrave. A tua mente. Lixada. Sábado de manhã, para quem tem uma semana cheia, preenchida, é quase impossível sair da cama. O corpo não se mexe. A mente diz-te isso. Mas se ficares na ronha, vais perder a melhor maré. É que perdes sempre a melhor maré quando ficas a dormir.

Segundo obstáculo. Isso da natureza. Ora o tempo, ora o mar. Ora o tempo e o mar. Não dá para controlar. Se és como eu, só disponível para o surf ao fim de semana, passas quinze dias, três semanas sem por a prancha na água. Not cool. Muito menos para quem quer evoluir.

Terceiro impedimento. Todos aqueles que fazem parecer o surf tão fácil. Não dá. A onda nem é onda e lá vão eles em backsides, bottom turns, como quem diz, brincam no parque de diversões. E desmoraliza. Porque ainda estás naquele constante sobe e desce das quedas. Queres ser como eles; não queres perder uma onda por a tua remada não ser suficiente; não queres falhar a onda por não te conseguiste por de pé. Queres surfar como eles.

Estes impedimentos só o são se deixarmos de tentar. Mas há forma de contornar isto: continuar a surfar e fazer de tudo para que todos os momentos do surf sejam de pura diversão. É que até o Kelly Slater se diverte (e cai). Lembro-me sempre da história, cai sete vezes levanta-te oito. Nove. Dez. As vezes que forem precisas. A determinação e persistência levam-nos lá. No surf. Na vida.

Eu vou a caminho.