Category: surf

DawnPatrol: o surf de madrugada

Ainda que as manhãs sejam de preguiça, ver o dia nascer no mar é uma bênção. Quem ainda não tem o surf enraizado na alma, perde o direito a ondas quase exclusivas ao acordar do dia. Descobre as vantagens do surf nas sessões de dawn patrol.

Não é a primeira vez que falo sobre fazer algum tipo de exercício logo pela manhã. No menu, incluo yoga, corrida ou o surf. Acredito que seja particularmente difícil para quem não aprecia sair da cama antes do nascer do sol, mas se pensarmos bem nos positivos desta ação, os resultados são mais felizes do que ficar na ronha.

O down patrol é o surf de manhã cedo, de madrugada. Apesar de a tradução literal ser patrulha da madrugada, aqueles que observam as condições do mar antes de qualquer raio de sol, para os fiéis ao surf significa vestir o fato de neoprene e ter direito a um swell só para si. Mas há mais razões para nos dedicarmos ao surf de manhã cedo:

  1. Menos crowd. Como nem todos são amantes de acordar de madrugada, a possibilidade de ter muitos surfistas na água é bastante reduzida.
  2. A serenidade da manhã. É um privilégio de poder desfrutar dos sonos da natureza enquanto tudo dorme. E apreciar as cores do céu que devagar mudam de cores frias para quentes.
  3. Ter tempo para nós próprios. Que sejamos egoístas antes de nos dedicarmos ao nosso dia. Ter tempo para nos mimar ou dar aquilo que mais apreciamos é essencial para a nossa vida.
  4. Para quem está sempre à espera do fim-de-semana, um surf de manhã cedo, a meio da semana faz toda a diferença. Além de evoluirmos mais facilmente, retiramos pressão às sessões de sábado e domingo (que nem sempre existem).
  5. Ficamos simplesmente mais felizes para o nosso dia. As endorfinas sobem, o sorriso e boa disposição ficam por perto.

Vamos a isso?

Como desbloquear num agueiro

Muito antes de viver o mar tatuei em mim a palavra flutua. Conservar à superfície, boiar, vogar sobre as ondas. Um estado de alma de serenidade, de simplesmente deixar-me levar pela corrente sem nada temer. Mas em dias de surf como o de hoje, a palavra flutua tem mais significado do que alguma vez considerei ter…

A praia de São João da Caparica é a minha praia na costa; aquela a que mais vou, inverno ou verão. Habituei-me aos picos, ao areal de extensão determinada entre pontões, encontro com os amigos de sempre debaixo dos chapéus de sol e pranchas de surf em espeto na areia. É também o mar que mais sustos ja me causou. Ali parti a cabeça e fui vencida pelo cansaço de lutar contra os agueiros.

Hoje não foi diferente.

O mar vestiu-se de azul escuro. De manhã bem cedo, ainda de pés na areia, o professor questionou: – o que estão a ver? Um agueiro, respondemos. – E onde vamos surfar?, retorquiu. No pico em frente ao banco de areia.

A maré ia encher ao longo da manhã, e a corrente do agueiro ia ajuda o carrossel: entrar pelo canal, apanhar a onda, sair e voltar a entrar pelo canal. Mas já se sabe, nada no surf é matemático. A primeira onda foi feliz. Senti ligeiramente a corrente que nos ia tirando do pico, mas fixada num ponto da terra, sabia onde me manter. Assim veio, sorridente, direita a mim. Livremente flutuei em cima da onda. Por estar de novo na areia, aguardei que o set passasse. Tentei chegar lá fora, mas ingenuamente deixei-me cansar. Remava sem sair do lugar em pleno agueiro. Agarrei-me à prancha e sentindo a areia debaixo dos meus pés, ergui-me e ali me mantive, com água pela cintura, a acalmar a respiração. Fôlego recuperado, recordando a teoria do carrossel, entrei novamente pelo canal.

Nessa altura, entre a primeira onda surfada e a minha insistência em regressar ao mar, tudo tinha mudado. Maré mais cheia. Corrente mais forte. Coloquei-me na prancha, leve e veloz, cheguei ao outside sem grande esforço. Mas é preciso mais astúcia e respeito pelo mar. O agueiro também se intensificou nestes instantes e só depois percebi que não vou sair dali com a mesma agilidade. Bloqueei. E com isso, a respiração torna-se pesada, desesperada, inexistente. Eu estava em pânico e congelei o pensamento, a capacidade de reação. Deixei o medo apoderar-se de mim.

“Senta-te na prancha e não entres em pânico!”, veio de lá a ordem. Eu estava em segurança, embora o cenário soasse a demasiado negro. As ondas não eram grandes, não me punham em aflição. Estava a flutuar sentada na prancha, um tanto ou quanto à deriva, mas sem perigo de me afogar naquele momento. Tinha a prancha, todos estavam calmos ao meu redor, dali haveria de sair. Bastava aguardar pela onda. E não bloquear. Assim foi. Sai do mar na onda que apanhei.

Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Sentei-me na areia a observar o mar. Vi-lhe todas as formas e maus feitios. Sobe e desce inconstante, caminho de cabras em forma líquida, intrigantemente atraente. Levantei-me, peguei na prancha e voltei a entrar. Em cheio no agueiro. Desta vez saio daqui sozinha. E saí.

 

O que aprendi com o mar de hoje?

  • O mar tem uma densidade e profundidade infinitamente misteriosa para o nosso conhecimento. É preciso aprender ler o mar, o melhor que pudermos, sem promessas de sempre saber como vamos sair.
  • Flutuar é a melhor estado para a mente. Se ficar em pânico, não há capacidade de análise e de resposta. E neste sentido, flutuar é a minha palavra para mente calma.
  • Se a nossa velocidade para chegar ao outside for demasiado veloz, algo não está certo. De novo, certificar de que lemos bem o mar antes de entrar.
  • Ainda preciso de mais preparação física para o mar. É sempre tão exigente…
  • Amanhã vou voltar, hei-de sempre voltar. Assim como é a corrente do mar, é o sal que corre em mim. Vai e volta. Sempre diferente.

Dicas para conquistar uma onda nova

Deixei que surf entrasse na minha vida para me conquistar. Sem medo entrei nisto sozinha quiçá atrevida, quiçá inexperiente, mas é daquelas coisas que temos de fazer por nós. A verdade é que me transformou: estou mais atrevida, mais inexperiente no surf. Porque arrisco a explorar novas ondas, mas sem conhecer o mar, os locais e as condições…

Seguindo esta lógica, por ganhar ao longo das surfadas confiança, tornou-me ávida por mais ondas, outras ondas, com mais densidade, mais curvatura, mais velocidade. Só que no meio deste querer cigano é preciso saber o que fazer quando chegamos a um novo lugar. Dicas úteis para qualquer surfista guardar na vida (e para eu me não me esquecer também).

Analisa as condições antes de entrar no mar

Ficamos tão excitados com a ideia de ir surfar a um sítio novo que muitas vezes nos esquecemos de confirmar as condições. Felizmente, hoje em dia há gráficos e câmaras que nos podem orientar muito antes de entrar no mar, e há também o poder da observação quando chegamos à praia. Ver como os outros surfistas se comportam, se remam muito, se notamos a corrente ou um agueiro, onde a onda forma e quebra. Por uma questão de segurança, isto importa, e muito.

Respeita as regras do surf

Não te coloques em perigo nem quem partilha o pico contigo. Evita apanhar ondas em simultâneo, tenta não te meter à frente de alguém quando remas para o outside; contorna a onda. Lembra-te das regras do surf. Espera pela tua vez. O surf exige paciência e já que estás num lugar novo, nada como desfrutar do momento e aproveitar a tua onda, aquela que está reservada para ti.

Não te deixes intimidar

Ainda que já tenha sentido a parte menos amigável do surf – isto de entrar nas ondas dos chamados locais sozinha nem sempre corre bem -, não nos podemos deixar intimidar. Pelo contrário, há que usar os locais em nosso favor. Questiona antes de entrares no mar, tenta perceber o melhor sítio, o que precisas de saber para não te colocares em perigo. Se alguém tiver um ar mais durão, mantém o sorriso no rosto e rema. O mar é liberdade.

O melhor é levar companhia

Por mais que seja solitário o ato de surfar, por mais que a evolução no surf dependa de cada um de nós individualmente, nada melhor do que explorar novas ondas, picos, esquerdas, direitas em boa companhia. Têm alguém para partilhar o momento e em situações mais delicadas, sabe bem ter um rosto conhecido por perto para nos ajudar.

3 razões porque deves apostar no surf em 2017

Provavelmente a maioria não tem o surf como prioridade na lista de resoluções de 2017, mas gostava que me acompanhassem até ao fim. Os benefícios do surf a longo prazo deixam-nos tão mais felizes…

Quando me propus a criar este espaço de partilha de coisas sobre a vida ligada ao mar, tive como propósito incentivar qualquer pessoa a descobrir o que as faz feliz. A mim, indubitavelmente, é o mar. A sincronicidade dos benefícios psíquicos e físicos é mais do que evidente. Não queria estar longe das ondas, da areia, da maresia, e para isso, precisava de encontrar algo que me fizesse estar mais tempo no palco principal da minha vida. É aqui que entra o surf. Ao longo destes últimos tempos em que tenho dedicado com mais seriedade ao surf, descobri que tive muito mais a ganhar do que simplesmente apanhar ondas.

Benefícios Físicos: é um desporto muito completo. Nunca tive costas, ombros e braços definidos. Com tempo, a musculatura foi-se desenvolvendo, tenho uma postura mais direita, além de me poupar idas ao ginásio. O trabalho cardiovascular é intenso, queimamos muitas calorias, e trabalhamos os músculos todos do corpo – é que o equilíbrio na prancha pede, além de braços, força de core e pernas.

Benefícios Psicológicos: no outside oiço muitas vezes, “está tudo na tua cabeça”. E está. Quanta vez, por pensar demais, erro na escolha da onda, na postura que coloco, deixo peso a mais a frente, peso a mais atrás. Quando liberto a mente, quando não coloco pressão no pensamento, tudo flui com naturalidade. Depois, ao estar somente no mar, sentada na prancha, não tenho tempo para pensar nos afazeres do dia-a-dia, dos problemas que nos assolam. Ali, aqui e agora, sou livre. Dos poucos lugares onde a mente limpa sem grande esforço e tudo se relativiza.

Benefícios Emocionais: eu sei, estou sempre a sorrir, mas deviam-me ver depois de apanhar uma onda. Um sorriso rasgado de orelha a orelha. Aquele conceito da adrenalina dos corredores, no surf também sentimos. Libertamos endorfina, estamos mais leves, mais felizes. Além disso, a sensação de superar o meu medo faz-me sentir capaz de conquistar o mundo.

Estamos de portas abertas para 2017. O que quer que tenha sido este ano, estamos sempre a tempo de ser felizes. Com o surf à mistura, ainda melhor.

O que o surf já me ensinou

Tinha 25 anos quando me atrevi a experimentar pela primeira vez o surf. Cinco anos depois, decidi que ia ser algo importante na minha vida. E assim se cumpre esta promessa, religiosamente, há quase três anos. As lições de vida que o surf já me deu.

Quando decidi levar isto do surf a sério – dar por mim a comprar prancha e passar a ver todas as manhãs as previsões do mar – tinha este desporto apenas como uma nova diversão na minha vida. Só que tornou-se em algo muito mais importante e intenso do que isso. Entre aventuras mais assustadoras, que incluem cabeça partida e ser arrastada em correntes, a soma das boas partes é muito maior. Eis as lições de vida que o surf já me deu.

#Paciência

As horas a fio à espera da onda que nem sempre vem ou não vem como queremos. Uma chatice pegada, pergunto-me inúmeras vezes porque estou ali, não tinha mais nada de interessante para fazer. Mas acaba por me conquistar a paciência, a serenidade de saber esperar pela melhor onda que ainda está por vir. E não é assim mesmo a vida?

#Coragem

Seja para mar grande, mar pequeno, ondas gordas, ondas tesas, o mar pede coragem. Nunca sabemos que correntes passam por baixo, que mistério nos reserva o mar. Encarar com a humildade de que é o nosso momento de comunhão com a natureza e que, sejam quais forem as condições, pede-nos a coragem de saber entrar e saber navegar.

#Esperança

É só mais uma onda na esperança vã de sermos francamente melhores nessa, mais felizes quiçá. Esperamos sempre que aquela última onda nos traga ao de cima o nosso melhor.

#Amizade

Quem não anda no mundo do surf, não faz ideia da facilidade que existe em criar uma comunidade, uma tribo, um círculo de amigos. Hoje é raro o dia em que entre sozinha no mar, há sempre alguém por perto que quer tanto quanto eu apanhar ondas nesta simplicidade que é a vida.

#Gratidão

Por tudo o que o surf me tem ensinado e dado, eu estou e sou grata. Há dias em que tudo nos corre bem, outros nem por isso. Mas o facto de poder entrar no mar, de me divertir, e de estar em comunhão com a mãe natureza é mais do que razão para me sentir grata e arrancar de mim um sorriso genuíno.

O que faz de John John Florence o melhor surfista do mundo

John John Florence dispensa apresentações. É o atual campeão mundial de surf e também alguém que admiro muito pela atitude que tem perante a vida.

Ainda no rescaldo do campeonato MEO Rip Curl Pro Portugal sinto que também quero deixar aqui registado o momento histórico que nós portugueses pudemos assistir: John John Florence sagrou-se pela primeira vez na vida campeão mundial de surf cá em Portugal (e eu tive a oportunidade de o ver a surfar ao vivo, que lenda!).

Mas não é sobre isso que quero falar, nem da sua exímia capacidade técnica nas manobras de surf. Já todos percebemos que o puto é mesmo bom no que faz. Eu quero antes evidenciar – na minha humilde opinião – a sua atitude perante a vida e como a força da mente nos ajuda a levar onde queremos ir.

É totalmente focado: “toda a minha vida eu trabalhei para isto“, disse na terça-feira, após ter ganho o campeonato em Peniche. Não se trata apenas de levar o título de campeão, salienta-se aqui a constante capacidade de se manter focado no objetivo que sempre quis alcançar. E assim foi. Se desde criança quis ser campeão mundial, aos 24 anos conseguiu. Há que perceber que a vida nem sempre acontece no ritmo que queremos, tudo leva o seu tempo.

É grato: “acordo todos os dias a pensar na sorte que tenho”. Esqueçam a arrogância. Quem sabe agradecer, vê a vida a fluir. Que o diga John John Florence. Eu também o digo por mim. Ao ser grata pelas oportunidades que tenho, sinto-me mais capaz para fazer seja o que for, e consequentemente, mais feliz.

Dá o seu melhor. Se sabe que vai estar fora durante para competir, vive aqueles momentos como únicos, canalizando ali toda a sua energia e tempo. É um compromisso de entrega irrepreensível. É assim que se deve viver. Dar o nosso melhor, sempre, em tudo o que fazemos.

Relativiza as situações. Nem sempre conseguiu boas classificações, o que não o fez desanimar ou desistir. Sabe que está em competição, mas acima de tudo pensa que tem de se divertir. E nada melhor para o tornar mais relaxado em relação à pressão dos campeonatos. Quando relativizamos as situações mais adversas na nossa vida, conseguimos aliviar a pressão.

Medita. Eu estava na praia de Super Tubos sentada perto do corredor de passagem dos surfistas e lá vinham os seguranças a rodear o menino prodígio. Estava tudo histérico com a sua presença, só que ele vai calmo. Parou diante do mar durante uns momentos e ali ficou tranquilo, a respirar calmamente. Estava a meditar.

Sempre que me encontro diante de uma situação de stress, recolho-me às técnicas de respiração que ajuda a sossegar a mente e isso ajuda-me a pensar com clareza. Acredito que John John Florence deva ter recorrido à técnica da visualização enquanto meditava. É que se se viu a vencer a tudo, ele conseguiu.

Direitos de imagem: Ture Lillegraven in Outside

5 razões porque não estamos a evoluir no surf

Sentes que não estás a evoluir no surf? Já paraste para fazer uma análise à tua performance? Estamos sempre a tempo de melhorar.

A arte do surf é muito exigente. Parece tão simples quando vemos uma Leah Dawson ou o Dave Rastovich em uníssono com as ondas do mar, a fluirem entre cada ondulação, nesta dança sobre as ondas. Mas não é. Exige uma preparação física elevada, saber interpretar o mar, conseguir ultrapassar as barreiras psicológicas. Portanto, evoluir no surf requer dedicação e igualmente compreensão da nossa parte. Temos de conseguir ver o porquê de não saber cortar a onda ainda e perceber que há sempre uma explicação para tal.

Estamos a usar a prancha errada

Nos primeiros tempos faz sentido usar as pranchas de espuma, depois passamos para uma de epoxy. Larga, volumosa, estável. São ideais para aprender o stand-up.  Chega a uma altura em que nos sentimos confortáveis e começas a ter sede para mais. Temos que nos adaptar à nossa evolução, se estamos com vontade para mais, mudamos de prancha. Mas calma na escolha. Não vale a pena comprar uma prancha nova. Até fazer aéreos, há que treinar muito em pranchas mais estáveis.

Não temos preparação física

Para quem entra no mar, sabe o quão exigente é para a nossa capacidade física. Não podemos passar a semana sentados ao computador, sem praticar qualquer tipo de actividade física e esperar que no próximo sábado seja um dia inteiro dedicado ao surf. Se queremos evoluir, temos de apanhar muitas ondas, treinar muito no mar, mas se estas nos escapam pela falta de resistência ou força na remada, significa que não temos a preparação física suficiente e é necessário recorrer a atividades físicas extras.

Não nos esforçamos o suficiente

As respostas residem em nós. Sabemos que surfar é difícil, mas quando queremos, conseguimos. A questão é que temos uma tendência para dar demasiadas desculpas para não evoluir. A prancha não é boa. O mar está grande. O mar está pequeno. Está a chover. Não está sol. Hoje dói-me o braço, o ombro, que seja. Parar de inventar as desculpas e ir. Nunca tentar de deixar de tentar.

Não nos vemos a surfar

Não temos um espelho quando estamos a surfar. Não é como no ginásio que conseguimos ver a nossa postura. Por isso, fazer aulas de surf com o professor a filmar e a corrigir o que fazemos de errado dá-nos a dimensão da realidade. Vemos como nos portamos em cima da prancha e o que precisamos de melhorar.

Não vamos com frequência

Temos de nos meter no mar sempre que possível, ser consistentes e insistentes. É muito difícil evoluir quando vamos “de vez em quando”. Assim que criarmos um ritmo de surfadas, exploramos muito mais a onda, tentarmos muito mais vezes, descobrimos que se olharmos para a direção para onde queremos ir e não para baixo, o surf acontece (e a vida também). A evolução torna-se natural.

Como manter o corpo fit para o surf das nove às seis

Trabalhar na mesma postura das nove às seis quebra a nossa evolução no surf. Dicas simples a implementar de segunda a sexta para nos deixar fit para o surf.

Quantos passamos o dia sentados em frente ao computador? Naturalmente que a agilidade no surf só se conquista no próprio mar, mas não havendo essa disponibilidade durante a semana, torna-se mais complicado manter o ritmo aos sábados e domingos. A solução passa por criar um plano de treino e mobilidade física durante a semana e assim ficarmos o mais preparados possível para o surf.

Natação antes ou depois do trabalho

Fiz natação durante boa parte da minha adolescência, isto de estar ligada à água é mais do que o signo na casa sol. Ir para uma piscina de manhã cedo antes de trabalhar ou ao final do dia para descomprimir é uma excelente maneira de manter ritmo dentro de água.

Aumentar o cardio na hora de almoço

Uma das coisas que gosto de fazer para quebrar as horas paradas, colada à secretária, é caminhar e incluir muitas escadas pelo caminho durante a hora de almoço. Se houver um café a três quarteirões do trabalho, vale a pena andar até lá. Mas não a passo de caracol, é mesmo para puxar pelas pernas e andar rápido, fazer aumentar o ritmo cardíaco. Pode soar a pouco, mas isto vezes cinco dias por semana, durante um mês, faz toda a diferença.

Alongar ao longo do dia

Por norma, descuramos dos alongamentos mas não devemos. Alongar é muito importante para evitar lesões musculares e manter o bom funcionamento do músculo. Para quem pratica yoga, é mais fácil saber que tipo de posturas fazer para contrariar as horas sentadas. No entanto, deixo aqui alguns exemplos de alongamentos a fazer no nosso dia-a-dia para aliviar a coluna, os ombros e o pescoço tenso.

Trocar a cadeira pela bola Suíça

Trocar a cadeira pela bola suíça força-nos a trabalhar o core e a endireitar a postura. Pode parecer estranho nos primeiros tempos, mas com a força do hábito vamos conseguir fazer essa troca. Além disso, podemos sempre terminar o dia a fazer alongamentos com a ajuda da bola. Só temos a ganhar.

Mesmo com o nosso dia confinado ao nosso emprego, vamos lá dar o nosso melhor e alterar alguns hábitos atrás da secretária. A consistência é a solução para nos manter num bom nível de surf, ou mais do que isso, num pleno bem-estar físico.

Como desligar a mente durante as férias

Férias. Finalmente chega a hora de quebrar a rotina e relaxar. Mas será que conseguimos desligar? Infelizmente não funcionamos por botão. Há sempre algo que nos perturba o inconsciente e não nos deixa aproveitar este merecido sossego na sua plenitude.

Ir de férias, por mais breves que sejam, é um compromisso de honra com a nossa alma. É dizer às rotinas que as vamos deixar por uns dias, ao clientes que não estamos disponíveis, às redes sociais que estamos offline, à família que precisamos de um tempo. E quando arrancamos de férias, será que nos desligamos de tudo isto? Não. Mas podemos tentar. Eis a minha lista.

Meditar a qualquer hora do dia, em qualquer lugar. Eu medito nas aulas de Hatha Yoga, e sempre que posso, na praia. O som do mar tranquiliza-me e ajuda-me a desligar. Por isso, nestas férias temos de aproveitar bem os momentos para esquecer o mundo e dar inicio a esta viagem interior.

Caminhar na natureza. Seja a beira-mar, no campo ou no meio das árvores, todas as caminhadas em comunhão com a natureza e de preferência sem wi-fi, é a cura para qualquer mente acelerada.

Visitar lugares inóspitos ou remotos. Um sítio que nos faça sair da zona de conforto e encontrar respostas às questões inquietantes (que até agora não nos deixaram desligar) ou que nos faça simplesmente não pensar em nada que tenhamos na bagagem, apenas admirar o que temos aos nossos pés.

Experimentar algo novo. Como a nossa cabeça não foi concebida para estar completamente desligada, a novidade liberta-nos das tensões que trazemos. Encontrar um bom desafio – como um aula de surf ou yoga – são as hipóteses a ter em conta (palavra de yogini).

Respirar. Ou melhor, aprender a respirar. Se estamos com a mente inquieta, respiramos de forma mais acelerada. Portanto, nas férias devemos ter tempo para aprender a respirar de forma tranquila e ritmada para que nos conduza à paz interior, ao controlo dos impulsos, e consequentemente, à libertação da mente.

Dito isto, vou estar offline a partir deste fim de semana. Vou praticar yoga, meditar e aproveitar o tempo em família, na praia a surfar. Sejam felizes. Prometo regressar dia 15 com mais energia e novidades no Mar de Sal.

Kat Barrigão, a bailarina do Longboard nacional

Kat Barrigão dispensa apresentações. É a “rapariga do Longboard.” Com cinco anos de surf é já um nome promissor no desporto nacional. Dedica-se arduamente para conquistar a qualificação para a final mundial de Longboard na China e é, ao mesmo tempo, blogger no Kats Raw Kollections onde os treinos e a vida saudável são temas de partilha.

Tentei falar com a Kat pessoalmente, mas das duas uma, ou metia-me numa prancha de longboard e tentava apanhá-la nas ondas ou então teria de viajar para lugares maravilhosos por onde andou recentemente. Como não consegui nenhuma das proezas, e a Kat é uma miúda pragmática, no seu tempo livre, deu-me respostas de campeã. Apaixonada por desporto, corre-lhe no sangue a competitividade, mas nunca pensou que seria o Longboard a mudar a sua vida.

≈ Quando é que começaste a surfar?

Comecei a surfar ao 13 anos na praia de Carcavelos. Faz 5 anos este ano. A minha madrinha ofereceu-me uma aula de surf no Natal e desde esse dia apaixonei-me pelo surf, e depois pelo longboard, que já faço há 3 anos e meio.

≈ O que te apaixonou por este desporto?

Desde de pequena que me lembro de passar os fins de semana na praia com a minha família. Sempre adorei estar perto do mar e de fazer desporto, mas não fazia a mínima ideia do quanto eu iria-me apaixonar pelo surf, e ainda mais pelo mar. Pessoalmente não tive nenhum momento em que me apaixonei por este desporto, mas com cada campeonato e cada surfada fui descobrindo cada vez mais sobre o surf e este estilo de vida que me deixa tão feliz.

≈ Participaste recentemente no LQS de Vieux-Boucau e ficaste em quinto lugar. Qual é o teu próximo desafio? Onde queres chegar?

Este é o meu primeiro ano a competir nestas provas do mundial de longboard. Depois destes dois quintos lugares na prova de França e de Gaia tenho como objetivo continuar a treinar para alcançar melhores resultados. Neste momento estou em terceiro lugar no ranking europeu de qualificação, mas tenho como objetivo ficar em primeiro lugar para me qualificar para a final mundial na China.

≈ E o que te motiva a chegar mais longe?

Desde pequena que sempre pratiquei desporto e venho duma família muito competitiva. O meu pai sempre me disse que, em qualquer coisa, seja na escola ou no desporto, o objetivo é ser sempre o melhor e ser um exemplo para os outros. Eu acho o que me motiva mais é querer alcançar objetivos que outras pessoas ainda não alcançaram e em especial no Longboard feminino. Quero ter sucesso num desporto que adoro e mostrar a outras raparigas que tudo é possível com muito trabalho e dedicação, e também quero continuar a provar isso a mim própria.

≈ Quem te inspira?

Eu inspiro-me em pessoas muito diferentes. Por exemplo, no longboard e no surf, as minhas inspirações são a Chloé Calmon, a Kelia Moniz e a Leah Dawson.

A Chloé , como a Kelia, é uma das melhores longboarders do mundo e uma pessoa muito trabalhadora. Tive a oportunidade de a conhecer em França e de estar novamente com ela em Gaia. Além de ser a primeira a chegar à praia de manhã é também uma pessoa muito humilde e simpática.A Kelia Moniz também é uma longboarder que vai ficar para a história com dois títulos mundiais e um estilo e uma elegância linda. É uma das pessoas que mais me inspira a melhorar a minha postura e estilo.

A beleza do longboard feminino é hipnotizante e calmante, e quando bem feito, é ver uma bailarina dentro de água a dançar sobre a as ondas. A Leah Dawson para mim é um exemplo perfeito de uma bailarina que dança sobre as ondas. A Leah tem um surf muito técnico e limpo, mas ao mesmo tempo tem um estilo muito próprio e bastante surpreendente. Faz parecer mesmo fácil o que faz quando na verdade o nível de dificuldade é altíssimo. São três surfistas que me inspiram não só pelo estilo próprio e lindo, como por aquilo que têm feito pelo longboard feminino, chamando a atenção para este desporto e a conquistar mais miúdas a praticar longboard. E isso é basicamente o que tenho como objetivo em Portugal.

≈ O surf não é só um desporto. É uma atitude, um estilo de vida, um ensinamento constante. O que te ensinou até hoje o surf?

Quando comecei a surfar nunca pensei que um desporto pudesse mudar tanto a minha vida como o surf mudou. Nunca fui uma pessoa muito confiante, sempre fui muito tímida, e o surf ajudou-me muito a conseguir falar e conhecer mais pessoas e a ganhar confiança.

≈ Além de seres surfista profissional, escreves no blogue Kats Raw Kollections. Qual a importância da alimentação para ti?

Felizmente tenho duas influências muito boas na minha vida que são os meus pais. Sempre me ensinaram que umas das coisas mais importantes para alguém se manter saudável e feliz é a alimentação. Como sempre fui atleta aprendi desde muito nova que para competir ao mais alto nível em qualquer desporto é preciso tratar bem do nosso corpo e alimentar-nos bem. E até mesmo para a nossa felicidade e bem-estar é fundamental escolhermos bem o que comemos. Como sinto que a nossa alimentação é super importante gosto de encontrar novas receitas e partilhá-las com outras pessoas. É importante aprendermos uns com os outros!

≈ Fala-me mais sobre o teu blogue Kats Raw Kollections.

Kats Raw Kollectins é um pequeno projeto que eu comecei no início deste ano. O projeto surgiu como uma resolução do ano novo. Sempre adorei escrever e ler blogs e artigos sobre comida e viagens de outras pessoas então decidi começar um blogue. O nome do blogue resume muito o conteúdo,  as “coleções cruas” de tudo o que eu faço: viagens, campeonatos, smoothies de fruta que como antes de uma surfada matinal.

Quero usar o meu blogue quase como um diário que mostra várias coisas sobre mim e os meus interesses. Tenho como objetivo documentar a minha vida de atleta com todas as dificuldades e sucessos que vou tendo com a esperança que outras pessoas possam ler e aprender comigo.

Ainda estou a aprender sobre como gerir um blogue e a descobrir o meu estilo de escrita, mas acho que com o tempo vou lá chegar e estou com esperança que agora no Verão vá ter muito mais tempo para escrever e encher o meu blogue com as minhas aventuras e “kolleções”.

≈ O que comes ao longo de um dia de treino de surf? Que tipo de cuidados tens?

Normalmente acordo bem cedinho de manhã e começo logo o dia com uma peça de fruta, como uma banana ou um pequena salada de frutas para ajudar a acordar e dar energia. Durante o treino, se for um treino bastante longo, como uma peça de fruta nas pausas e bebo muita água. O meu pai está-me sempre a lembrar para beber muita água, é IMPORTANTÍSSIMO BEBER ÁGUA! Depois, no resto meu dia tento ter refeições equilibradas e saudáveis com as porções certas.

Outra coisa que é importante e que as algumas pessoas não percebem é que comer saudável não é comer porções pequeninas, não é o tamanho das porções que importa, mas sim o que se come.

≈ Praticas mais alguma atividade física? Como é que te manténs activa quando não há ondas?

Recentemente tenho estado a meditar e a fazer yoga para ajudar com a flexibilidade. Também adoro correr e box de vez em quando para manter a forma física, e também porque me faz sentir bem depois de um treino. O exercício físico ajuda muito o estado mental de uma pessoa e acabo por me sentir ainda mais motivada para continuar a treinar e a manter-me activa nos dias em que o mar está flat.

≈ Tu danças sobre as ondas. Se quiseres inspirar outras miúdas a entrar no mundo do longboard, do surf, o que lhes dirias?

O longboard mudou muito a minha vida e sinto que esta minha jornada com o longboard ainda só está a começar. Tenho tido oportunidades inacreditáveis, tenho visto sítios lindos e conhecido pessoas extraordinárias, e sem o longboard nada disso teria acontecido desta maneira.

Acho que está na altura de criar um império de longboarders femininas, e há agora a oportunidade nesta geração de mudar como o longboard é visto. Espero inspirar mais raparigas a verem que é possível competir e ganhar aos rapazes e que não há nada mais bonito do que o line-up cheio de miúdas que dançam sobre as ondas. São precisas mais bailarinas dentro de água e eu vou fazer tudo o que for possível para que isso aconteça.