Bali: viagem ao meu horizonte

Estou de volta, mas com a alma em Bali. Um lugar tão espiritual quanto pensei ser, emana uma energia tão positiva que só dá vontade de lá voltar, de lá ficar. Uma viagem fisicamente longa, uma viagem tão próxima ao meu horizonte.

Tudo é viagem, tudo é experiência. Sabia que ia custar passar tantas horas nos aviões, demasiadas escalas e tempo morto, mas faz parte da aventura. Assim que saí do avião, mergulhei nos aromas de Bali: em todo o lado o incenso arde. A pele ficou humedecida, o cabelo descontrolado, um cansaço feliz por poisar os pés em terra firme após 25h de viagem. Não vi grande paisagem à chega, a noite cerrada escondeu os primeiros encantos da ilha dos deuses. Mas fui abençoada ao acordar com o som da chuva tropical, pássaros exóticos, macacos saltitantes e uma piscina serena virada a nascente. Ali senti uma paz imensa, meditei, pratiquei yoga. Seguiram-se dias de procura de praias e ondas que se coadunassem com o meu nível.

O surf em Bali

Não é fácil surfar em Bali quando não se tem grande experiência. As ondas são perfeitas, mágicas, mas o fundo coral na maioria dos lugares impõe respeito à falta de destreza. Apanhei a primeira onda ao fim de dois dias em Padang Padang. Com a maré cheia, lá remei e fui. Senti as ondas mais lisas, mais demoradas a desenrolar. Deu-me tempo e oportunidade para cortar logo a onda e ir, quase eternamente no pensamento, a surfar. Ainda tenho em mim essa sensação. De frente para a costa, uma falésia de palmeiras, rocha vulcânica, comerciantes locais com saris e bonés para todos os gostos.

O lado boémio de Bali

Estive por Uluwatu. A meu ver, uma área cool e boémia. Resume-se a pessoas bonitas vindas de todo o mundo, a um povo a querer vingar na vida através do turismo, a refeições com muitos alimentos orgânicos, pratos adocicados como mie goreng ou gado-gado, cheia de vegetais, óleo de coco e amendoim. Batidos e sumos naturais em toda a parte, água de coco (quente, nunca fresca), mas que ainda assim sabe maravilhosamente. Ficam cravados no palato os pequenos-almoços no Bukit Café, aquele bagel com abacate e ovos mexidos escoltados pelo sumo de papaia ou as panquecas de banana divinais (cresce água na boca só de me recordar).

É tão fácil falar com estranhos em Bali. Dás por ti com uma disponibilidade incrível em querer conhecer pessoas, falar, trocar experiências, contemplar o por do sol de Bintang na mão… Surfistas giros, naquele registo hippie chic sofisticado, tatuagens, bronze dourado, cabelos loiros, livres pelo asfalto nas aceleras e pranchas penduradas. O ponto de encontro era sempre no Single Fin ou nas festas nas praias. É um lugar para celebrar a vida, livremente, descomprometidos.

A magia hindu

A religião será sempre um ponto de referência para a forma de vida de um povo. Diz muito sobre hábitos, valores, comportamentos e em Bali, isso não e diferente. Maioritariamente hindus, ao contrário do resto da Indonésia que é muçulmana, a diversidade deles começa inclusivamente no seu hinduísmo que difere do da Índia, e talvez a justificação seja a mistura religiosa que ali se sente. Tanto vemos biquinis reduzidos na praia como mulheres em burkinis. Há pelo meio budistas, católicos, protestantes e outros tantos que têm o seu deus. Mas em Bali tudo flui, naturalmente, como as densas chuvas tropicais. Indicado para retiros, solteiros, pessoas que procurem um sossego interior ou que queiram amor solto nos fins de tarde de engate. Aquilo do Comer, Amar e Orar é tão verdade e pode ser encontrado apenas em Bali (não precisamos de passar por outras paragens).

A inevitabilidade do por do sol

Vi o nascer do dia algumas vezes, andei sempre desorientada com o fuso horário, mas nada substitui o por do sol. Ali tudo funciona ao contrário, a condução por influencia, quiçá, britânica (foi durante algum tempo colónia deles) ou dos países mais próximos como a Austrália, a Lua fica cheia na horizontal, o sol põe-se quando aqui o dia nasce. Nesta equação, estar sentada a beira-mar em Bingin, a ver surfistas a rasgar ondas na vertical como nunca vi, onde o sol se deita devagarinho no pano de fundo, naquele calor húmido… faz-me viajar de volta e a equacionar como um lugar no mundo pode dizer tanto sobre a nossa personalidade.